12/03/2018

O pecado original da República



Escrevo esse artigo em homenagem aos ocupantes da Vila Soma em Sumaré, SP e às jovens lideranças do Brasil, lideranças como o Prefeito Luiz Dalben (PPS) e o Vereador Willian Souza (PT), que representam de forma efetiva o direito constitucional e humano da moradia e a busca de solução, efetiva e essencialmente democrática, para essa realidade. Eles são, ao lado de outros tantos jovens a esperança e possibilidade de renascimento da nossa combalida democracia.

Bem, em 2005 o historiador José Murilo de Carvalho escreveu artigo, publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, no qual comenta fato constitutivo da nossa formação republicana: a exclusão do povo da vida política do país.
Tomo o titulo do artigo como homenagem ao historiador e passo a compartilhar reflexões com o leitor do 247, o faço sempre aberto ao debate e respeitando quem pensa de forma diferente.
Vamos lá.
O golpe está consolidado.
Lula enfrenta dificuldades para não ser preso e elas [as dificuldades] serão ainda maiores para registrar sua candidatura e manter-se candidato.
Mas o que fazer nesses temos do pós-golpe e de enorme turbulência institucionais, tempos tão estranhos que alguns propõem a volta dos militares ao poder central, ignorando a verdade que emerge da História? Penso que, é essencial irmos além do panfleto e do discurso, é fundamental refletir sobre a nossa democracia e sobre a república, desde o seu nascimento, desenvolvimento, interrupções e crises cíclicas, é fundamental refletir sobre o quanto lideranças importantes deixaram-se cooptar pelo charme da burguesia nacional.
Fato é que a democracia representativa no Brasil jamais foi efetiva e legítima expressão da vontade da maioria da população. Jamais!
Há quem afirme que nossa república foi proclamada, provisoriamente, sob o olhar atendo de uma sociedade de latifundiários, um tempo em que a economia era dependente da monocultura e do escravismo; um tempo em que o país era dominado por uma classe política e por uma rudimentar burocracia estatal, ambas mais preocupadas na manutenção e ampliação de seus privilégios e dos interesses oligarquias às quais serviam e do coronelismo; que naquele tempo o país tenha na sua elite a maior expressão de alienação, sem nenhum interesse no país; que essa alienação da elite é elemento constitutivo de uma burguesia nacional sem compromissos com qualquer projeto de desenvolvimento nacional. E o pior de tudo isso: sem participação efetiva da população.
Isso mesmo, sem participação da população.
Seria esse o pecado original da nossa república?
Bem, a verdade emerge do censo de 1930. O censo de 1930 informa que o país tinha uma população de 30,6 milhões. Contudo, do total da população apenas 2,4 milhões tinham cidadania plena e, portanto 28,2 milhões de pessoas eram excluídos do processo político/eleitoral. E, pasmem, em 1930 apenas 800 mil brasileiros foram às urnas.
Por quê? Bem, o brilhante Lima Barreto, citado por José Murilo de Carvalho, escreveu em 1922 no seu “Os Bruzundungas” que os políticos conseguiram, quase totalmente, eliminar da vida política o que, para eles, é perturbador: o voto, essência da democracia participativa.
Nossa república, que nasceu de um golpe civil-militar, sem participação da população, que viveu os seus primeiros anos sob a orientação daquela elite alienada e dos militares; uma república que quando se abriu ao processo eleitoral o fez de forma censitária, privilegiando as pessoas “de bem”, leia-se: eleitores eram aqueles que possuíssem bens, proprietários e rentistas (algo tão ao gosto dos positivistas).
Nossa História é cheia de exemplos do que acontece com a reação do povo à exclusão política, econômica e social. Basta lembrarmos o tratamento do Estado a Canudos, ao Contestado e aos grevistas do inicio do Século XX, todos foram “tratados a bala”.
A ausência do povo, segundo José Murilo, é o nosso pecado original, “... o pecado original da república...”. Esse pecado original deixou marcas profundas na vida política do país, portanto, qualquer formula que envolva mais exclusão do povo brasileiro, apenas aprofundará as marcas e as dores da Historia.
Nossa república precisa renascer e, assim como nós precisamos do batismo por termos nascido com uma natureza manchada pelo pecado original, também ela [a república] precisa do novo nascimento através do Batismo, a fim de ser libertada do pecado original e ser transferida para o domínio da liberdade e da democracia. Caminho para a qual o Brasil vocacionado.
O batismo é a participação efetiva da população no processo político, pois o país precisa de toda a população, dos setores democratas, da parcela ética da burguesia e de um projeto nacional inclusivo, par que todos cumpram a tarefa de construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Essas são as reflexões de hoje.

Pedro Maciel

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