24/04/2018

#LULALIVRE - Lula produz amor involuntário até em quem o odeia



A prisão de Lula vai acabar sendo um ponto de inflexão definitivo com o ódio que as pessoas têm dos presidiários. Vai humanizar a figura do preso – e isso só pode ser bom, do ponto de vista do senso civilizatório.

Brasileiro, em geral, acha que preso tem que morrer. Por isso, a gente tem o pior sistema carcerário do mundo. O brasileiro acha isso, no entanto, até ter algum parente ou amigo preso. Aí, ele passa a sofrer e a defender os direitos de seu parente ou amigo.
O Brasil realmente tem uma face fascista e não é de hoje. Muitos adolescentes defendem a ideia de “matar” – sic – todos os presos para “liberar mais espaço nas cadeias lotadas”. É um discurso muito comum entre eles (eles copiam dos mais velhos, pais, tios e tias).

Esse nicho de adolescentes-“velhos” também defende a redução da maioridade penal, sem nem saber das consequências tenebrosas desta proposta para as suas próprias vidas e liberdades.

Lula preso, no entanto, é um acontecimento (triste e ilegal) que começa a chamar a atenção de fato para as condições subumanas que grassam em nosso sistema – que abriga a quarta maior população carcerária do mundo, 700 mil presos.

E a atenção que a prisão de Lula chama é a atenção da humanidade que resta em cada um de nós. Lula tem esse poder: o poder de despertar humanidades.

Lula é uma sinuca de bico infinita para a elite escravocrata e para os fascistas de plantão. Ele não cessa de produzir sentidos humanos e positivos para a sociedade, mesmo perseguido, mesmo preso, mesmo em silêncio. O silêncio de Lula fala mais alto do que toda a gritaria da direita brasileira.  

Nem aquele boneco inflável de Lula vestido de presidiário conseguiu seu intento de produzir mais ódio em quem já odeia ou semear o ódio em quem apenas ama. Porque o boneco era muito “fofinho” e passava ternura (do ponto de vista semiótico). A expressão do boneco era “alegre” e suas feições eram doces e ternas, para além do fato de ser um velhinho fofo de barbas e cabelos brancos.

Isso foi tão evidente – a empatia do boneco, a despeito do ódio que o produziu – que os empresários que o financiaram tiveram que fazer outro boneco com feições agressivas para ver se funcionava melhor em seu intento de produzir ódio. Não conseguiram (o boneco de feições agressivas foi mal feito e sumiu de cena).

Lula é esse fenômeno: até em quem o odeia, ele produz amor involuntário.

Posto está que a prisão de Lula vai humanizar as masmorras brasileiras, até porque, quando ele sair de lá, ele vai providenciar um novo debate acerca do sistema carcerário genocida brasileiro. Isso é uma dívida social que atravessa séculos.

Por mais que a população de inclinação fascista tente negar, preso é gente. Estava mesmo na hora de se exorcizar esse sentimento tão animalizado de ver no preso um sub ser humano que merece ser execrado, esquecido e enterrado.

Os americanos lidam muito melhor com isso, a despeito de todas as violências que eles também cometem. Lidam melhor porque têm o cinema como uma arte estabelecida, forte e geradora de discursos. Os filmes de Hollywood sobre presidiários servem como contraponto humanístico a esses habitantes que pagam suas dívidas com a sociedade e estão mais dentro da lei do que muita gente.

A rotina de uma prisão como tão bem descreveu José Dirceu em entrevista recente à Mônica Bergamo é tão ou mais humana como qualquer outra. Presos são mais humanizados que muitos cidadãos que desfilam em liberdade. Isso também pode ser recuperado nos livros do médico Drauzio Varella, que conviveu com presos de diversos sistemas e sabe o que é a sobrevivência dentro de um presídio.

Lula preso mexe com esses sentimentos adormecidos de altruísmo, generosidade e compreensão do brasileiro que respeita os direitos humanos, mas que ainda tem uma visão estereotipada dos presídios e dos presos.

O Brasil vai passando por um processo muito complexo de “descontaminação” ideológica. Nós estamos no meio dele e, por isso mesmo, parece o contrário. Mas, é preciso começar a pensar com a lente da história.

Há uma diferença entre depositar a esperança na história e terceirizar toda resolução política nas costas dela e usá-la como instrumento legítimo de análise conjuntural.

Quem acompanha minimamente o texto histórico e todas as suas plurivocalidades e contradições sabe que o desejo individual e/ou artificial acaba mais cedo ou mais tarde sendo rechaçado. O sujeito da história é a coletividade. O discurso histórico é escrito a milhões de mãos.

Essa estória de que a história é escrita pelos vencedores é mito (mais um).  A história não tem dono e é por isso que ela assusta tanto aqueles que operam dissociados dela. A história é, no conceito – lamento dizer –, democrática.

As marcas históricas que Lula já deixou no país são muito evidentes. Ele venceu a luta simbólica contra as elites. Isso é fato. Preso, ele gera mais e mais energia simbólica para a sua já imensa significação política.

É exatamente dessa massa agregada de significações que emerge a possibilidade de o brasileiro pagar a sua dívida histórica com a desumanização dos presos que compõem o nosso sistema carcerário, concedendo à sociedade uma visão menos animalizada e vingativa das pessoas que são despejadas em casas de detenção, muitas vezes sem merecer ou apenas por serem pobres e não terem sequer acesso a informações sobre seus direitos.

Lula mais uma vez emerge, do seu silêncio eloquente e tentacular, incomunicável que está, como uma imensa personagem de literatura fantástica. Ele se alimenta de tudo que lhe é tentado enxertar de maneira artificial e anti-histórica (e antidemocrática). Fica cada vez mais forte simbolicamente e só não devora seus inimigos porque sua energia discursiva é composta, fatalmente, de insumos democráticos.

Esse efeito – o da re-humanização dos presos – está em curso. Foucault ficaria perturbado com tanta informação a respeito da microfísica do poder brasileiro que gira sem cessar em torno de uma figura máxima da representação humana: um humilde retirante que retira seu sentido histórico de toda uma população, seja ela simpática ou não. 

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Gustavo Conde
Brasil 247

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