23/05/2018

Sim, somos avós e temos vida sexual ativa



Dizer que as pessoas com mais idade não se interessam por sexo é um mito instigado pelo tabu que socialmente restringe as relações carnais a determinadas idades. Se hoje perguntarmos a qualquer adolescente se seus avós têm uma vida sexual ativa, provavelmente afirmará que não, que eles já não desfrutam das artes do amor. Nada mais longe da realidade. De fato, de acordo com um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine, cerca de 37,4% das mulheres com mais de 65 anos e 62,3% dos homens com essa idade mantêm uma vida amorosa ativa, o que significa mais de um relação sexual no último ano.

Então, por que ainda há tanto desconhecimento sobre o ars amandi dos idosos? Raquel García Romeral, do consultório de psicologia e sexologia RgR, é muito clara: "Aquilo que não perguntamos não existe, e sobre a sexualidade erótica e amorosa dos idosos não temos o costume de perguntar", por isso o estudo citado é um dos mais recentes, embora seja de 2013.
"A vida sexual não termina quando envelhecemos, longe disso", destaca Dario Calafiore, urologista do Hospital Universitário Lucus Augusti e especialista em andrologia. Apesar dessa contundente afirmação, Calafiore está ciente do quão complicado pode ser falar sobre sexualidade em uma consulta. "Apenas um em cada quatro homens procura um especialista para discutir essas questões. Além disso, não costumam falar sobre seus problemas sexuais por pudor, timidez ou porque o machismo presente na sociedade ensinou-lhes que, se seu pênis não funciona, já não podem ter relações sexuais, algo que não é real." Mas não só os homens demonstram relutância na hora de falar sobre esse tipo de problemas. A ginecologista e sexóloga Marta Recio Rodríguez, da Policlínica Nuestra Señora del Rosário, de Ibiza, observa o mesmo padrão em mulheres. "Quando vão à consulta, para elas é muito difícil comentar esse tipo de coisa. Normalmente, no final da consulta, tendem a revelar suas dúvidas como se não quisessem, porque não sabem como dizê-lo. Às vezes, dá a sensação de que ainda precisam que sejam questionadas", diz.
Superar essa relutância ao falar sobre problemas sexuais é muito importante, já que é o ponto de partida para solucioná-los e alcançar relacionamentos satisfatórios. A primeira coisa que deve ser levada em conta e destacada por todos os médicos especialistas é a mais óbvia: aos 65 anos, o corpo não é o mesmo e não responde da mesma maneira como quando somos jovens e, portanto, as práticas também têm que variar . Por exemplo: o início da menopausa nas mulheres e as alterações hormonais resultantes produzem mudanças na vagina e na resposta desse órgão aos estímulos sexuais. Uma das mais comuns é a secura, que pode causar numerosos incômodos, prurido e até dor. "Quando um casal vem à minha consulta para falar desses problemas, sempre sai com um pote de lubrificante farmacêutico", afirma Calafiore. A lubrificação é um dos pontos mais importantes a serem considerados nas relações depois dos 65 anos, uma vez que a secura da vagina no momento da penetração pode causar fricção e pequenas feridas, tornando a relação não só desconfortável para a mulher, mas também dolorosa.
Mas não são apenas as mulheres que experimentam alterações hormonais com a idade. Embora muitas pessoas não saibam, os homens também sofrem com a conhecida andropausa, uma fase em que a queda da testosterona produz alterações em todo o corpo que afetam a resposta sexual. "A andropausa é um período na vida do homem em que a produção de testosterona diminui, o que afeta o crescimento dos pelos, tanto faciais quanto pubianos, e que produz mudanças na musculatura", diz Calafiore. Todas essas transformações provocam alterações nos músculos que favorecem a ereção, tornando-a menos intensa e com menos prazer.
No entanto, não há nada que não possa ser resolvido, embora as soluções sejam diferentes para homens e mulheres. Segundo especialistas, depois dos 65 anos, devemos dar maior ênfase às carícias, aos jogos de sedução e às preliminares, já que essa sala de espera erótica prepara o corpo para que o ato sexual seja o mais satisfatório possível. O problema é que, em muitas ocasiões, os pacientes não aceitam essas recomendações e buscam uma saída mais fácil. "Quando são elas que vão à consulta, a primeira coisa que perguntam é se existe uma pílula como o Viagra, mas para elas", comenta Recio. "Este é o momento de começar a falar sobre outras armas, como a erótica, mas nem sempre conseguimos convencê-las. Querem ter as mesmas soluções que eles, e isso não é possível, já que, para a mulher, não há pílulas mágicas que ajudem no retorno da libido."
No caso dos homens, mudar a maneira como enfrentam as relações sexuais pode não ser suficiente para conseguir uma ereção. O tabagismo, a obesidade, a hipertensão ou mesmo a diabetes mal controlada podem ser a causa da falta de rigidez no pênis no momento da penetração. "O tratamento da disfunção tem que ser multissetorial. No meu caso, quando vem um casal com esse tipo de problema, antes de prescrever qualquer tipo de solução medicamentosa, primeiro procuro identificar qual pode ser o problema básico que impede a ereção e peço que se cuidem um pouco mais", explica Calafiore. No entanto, isso nem sempre é suficiente e, em seguida, é hora de aplicar outros tipos de soluções, como moléculas que promovem a ereção, comumente conhecidas como Viagra, medicamentos que são injetados diretamente no pênis, próteses penianas e, em casos mais extremos, a disfunção pode ser tratada com cirurgia.
Essas soluções para problemas físicos não podem ser adotadas como uma receita mágica. Isso porque nenhum dos remédios acima favorece o aumento da libido (o desejo de ter relações sexuais com outra pessoa), que é o ponto principal antes da penetração. "Às vezes, é preciso começar com coisas mais simples, como um jantar à luz de velas, tomar um banho juntos para iniciar os mecanismos de sedução de ambos", destaca Calafiore. O principal problema para ele é que, quando essa esfera não é levada em conta, o fracasso é quase certo. "Os homens são muito fálicos e pensam que, se não há ereção, não há relação e, ao ter problemas de ereção, deixam de ter relações sexuais com a parceira", por isso é muito importante entender que a relação sexual é um todo, desde os jogos preliminares até a penetração e o orgasmo.

Dicas para ter uma vida sexual prazerosa depois dos 65 anos

- Libertar-se de preconceitos e estereótipos que condenam os idosos à falta de desejo, ou que associam a sexualidade na velhice a algo sujo ou condenável.
- Não assumir os possíveis problemas que possam aparecer como barreiras irreversíveis. Muitos podem ser resolvidos ou compensados consultando um especialista.
- Parar de vincular a sexualidade a um único comportamento: a relação sexual com penetração que termina no orgasmo. A sexualidade é algo muito mais amplo e inclui expressões muito diversas que, na maior parte, não são afetadas pela idade. Representa um momento de troca emocional e comunicação incomparável. Nesse sentido, a experiência acumulada pelos idosos pode fazer com que o prazer da sexualidade, longe de diminuir, em alguns casos, aumente.


conteúdo
Antía G. M.
Madri
El País

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