23/06/2018

Especialistas explicam como o álcool afeta o organismo — e o que fazer para aliviar suas consequências



Depois do futebol, carnaval ou de outras comemorações em que é comum abusar do álcool, muitas pessoas enfrentam um conhecido efeito no dia seguinte. A ressaca — que inclui dor de cabeça, boca seca, dor de estômago, enjoo e tontura — se manifesta porque o álcool atua em diferentes partes do organismo do momento em que é consumido até ser completamente eliminado pelo corpo.

Nos primeiros goles, ele tende a causar euforia e desinibição, reflexos de sua ação no sistema dopaminérgico, localizado no cérebro. "É a mesma região onde atua a cocaína, mas em menor intensidade no caso do álcool", diz Rosana Camarini, professora do departamento de farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). Se a ingestão continuar, o efeito passa a ser maior no sistema Gaba, principal depressor do sistema nervoso central, causando sonolência e sensação de desânimo. Nessa fase, a bebida age no mesmo local que os medicamentos ansiolíticos.
"Duas doses são suficientes para fazer com que você fique mais alegre, falante. A pessoa muda um pouco a atitude, fica mais ousada e descontraída, mas também perde um pouco de reflexo. Se aumentar a dose, terá um ápice de euforia. Depois começa a ter sono, voz pastosa e perda da coordenação", afirma Alfredo Salim, clínico geral do Hospital Sírio-Libanês.
Irritação — Ao chegar ao estômago, o álcool provoca uma irritação na mucosa que reveste o órgão, em geral proporcional à quantidade consumida. Esse processo se chama gastrite alcóolica e às vezes não provoca nenhum sintoma. Com uma ingestão prolongada, tende se tornar crônica.
Depois de entrar na corrente sanguínea, a bebida também pode provocar irritações no fígado e no pâncreas. "O fígado é capaz de se regenerar de algumas agressões, e não sente falta daquilo que foi machucado na irritação aguda, mas, se isso ocorre de forma contínua, essas inflamações deixam de ser assintomáticas e podem levar à cirrose", explica Salim.

Ação das enzimas — O fígado é o principal órgão responsável por metabolizar o álcool, isto é, "quebrá-lo" em partes menores. Lá, ele vai sendo transformado com a ação das enzimas. A primeira delas, a álcool desidrogenase, transforma o álcool em acetaldeído, um composto com menos hidrogênio. Na segunda etapa, essa substância sofre ação de uma segunda enzima e é transformada em ácido acético, substância presente no vinagre, e é eliminado pelo organismo em forma de água e dióxido de carbono.
"O grande 'vilão' é o acetaldeído. Quando uma pessoa consome muito álcool, o organismo não dá conta de metabolizar tudo e o acetaldeído começa a se acumular, provocando os sintomas da ressaca, como dor de cabeça, náusea e taquicardia", afirma Rosana. Por essa razão, uma mesma quantidade de álcool consumida rapidamente e ao longo de um intervalo maior apresenta efeitos diferentes no organismo, uma vez que o corpo só consegue eliminar certa quantidade de cada vez.
E os efeitos são diversos de um indivíduo para outro porque a atuação das enzimas difere de acordo com a genética de cada um. Entre a população asiática, cerca de metade das pessoas possui uma mutação no gene que produz a segunda enzima de quebra do álcool, tornando seu metabolismo menos eficiente. "Por isso é comum que asiáticos, mesmo bebendo pouco, fiquem vermelhos e passem mal, como se fosse uma ressaca aguda", diz a pesquisadora.
As mulheres também tendem a sentir mais os efeitos da ressaca do que os homens. Isso acontece porque elas possuem uma porcentagem de água menor no organismo, de forma que o álcool é menos diluído e fica em uma concentração mais alta no sangue. Além disso, as enzimas que quebram a substância são menos ativas nelas, fazendo com que sejam afetadas mais rapidamente pela bebida.
O tempo que o álcool leva para ser eliminado do organismo depende tanto da pessoa quando da quantidade de álcool ingerida de uma vez. De acordo com Salim, quantidades grandes podem levar de 12 a 16 horas para serem processadas. "Não adianta dormir e achar que no dia seguinte você vai estar bem e poder dirigir", afirma o médico.

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Juliana Santos
Veja

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