02/07/2018

A brecha orgástica ou por que as mulheres hétero são as que menos chegam ao clímax



Nessa nova onda do feminismo, nós mulheres não só deveríamos pedir direitos iguais, representação igual nos cargos de poder e pretender receber o mesmo que nossos colegas homens; deveríamos estar dispostas a aproveitar da mesma cota de prazer, já que a brecha de gênero se estende à cama e à sexualidade.

De acordo com um estudo sobre a frequência dos orgasmos, realizado entre diferentes universidades norte-americanas e publicado na revista Archives of Sexual Behavior em janeiro de 2018, as mulheres heterossexuais são o grupo que chega menos vezes ao orgasmo, já que chegam ao clímax em somente 65% das vezes que mantêm relações. Por outro lado, no primeiro lugar estão os homens heterossexuais, com uma porcentagem de orgasmos de 95%, seguidos pelos gays (89%), os homens bissexuais (88%), as lésbicas (86%) e as mulheres bissexuais (66%).
É curioso como eles, com suas diferentes orientações sexuais, estão nas primeiras colocações nesse ranking que não faz outra coisa senão traduzir à linguagem do sexo as diferenças de gênero, já congênitas em nossa sociedade. Nessa altura já imagino muitos homens argumentando que só faltava ser da sociedade patriarcal a culpa das mulheres terem dificuldade para gozar. Nada mais distante de minha intenção entoar aquele bordão falso e inadequado de que “não existem mulheres frígidas e sim homens inexperientes”. Cada um/a é responsável por seu próprio prazer e, se é verdade que a sexualidade e o corpo feminino são mais ‘complicados’ (eu diria sofisticados) e requerem mais treinamento para seu manejo; também é verdade que a capacidade de aproveitar (e não me refiro somente ao sexo) não depende somente da biologia, genética e fisiologia; mas da cultura, do entorno e do ambiente em que se cresceu. Pais felizes fazem crianças felizes e sociedades doentes, puritanas e com uma relação ruim com o sexo fazem mulheres e homens (que já começam a incorporar essa tendência) anorgásmicos.
Betty Dodson, conhecida como a avó da masturbação, apareceu há pouco em um vídeo do Playground reconhecendo que levou 35 anos para conectar seu clitóris com sua vagina. A norte-americana dedicou mais de meia vida a ensinar outras mulheres como sentir prazer, a masturbar-se, em seus cursos de Body Sex, que escandalizaram os Estados Unidos nos anos 70. Dodson, pioneira do feminismo sexual, acha que já é tempo de falar da igualdade nos orgasmos. “Vejo como a próxima onda do feminismo será baseada na sexualidade e no orgasmo feminino. E isso irá mudar a energia do universo”, diz a especialista.

A ciência e seu tímido interesse pelo prazer feminino

Não faz muito tempo que os sexólogos se perguntam do porquê dessa lacuna de gênero, já que o prazer feminino nunca foi da incumbência da ciência. De fato, os primeiros estudos feitos sobre o orgasmo masculino datam de entre 1930 e 1950. Enquanto nos anos 30 do século passado, como diz um artigo do The Guardian, “alguns estudos começavam a dizer que certas mulheres reconheciam ter orgasmos”. Nos anos 60, Masters e Johnson descobriram que entre 14% e 16% das mulheres se reconheciam multiorgásmicas; mas os estudos mais sérios sobre o orgasmo feminino vieram com Barry Komisaruk.
O neurocientista norte-americano fez o primeiro mapa cerebral do prazer feminino em 2011 graças aos seus estudos sobre a atividade neuronal antes, durante e depois do orgasmo através de uma técnica de ressonância nuclear magnética funcional, um exame médico que permite visualizar a ativação e desativação de determinadas áreas do cérebro. O mecanismo do orgasmo feminino ainda está cercado de mistério, da mesma forma que sua função evolutiva. No homem, o clímax sempre foi interpretado como um mecanismo de recompensa (se é uma ação prazerosa será repetida o maior número possível de vezes, assegurando assim a descendência). Por que não é visto assim na mulher e se empenham em dar a ele uma função reprodutora? Muitos, entre eles Komisaruk, acham que há um propósito para o êxtase. As contrações involuntárias do útero durante o orgasmo teriam a função de ajudar o sêmen a alcançar as trompas de Falópio e realizar assim a fecundação.
Na opinião de Francisca Molero, sexóloga, ginecologista, diretora do Institut Clinic da Sexologia de Barcelona, do Instituto Iberoamericano de Sexologia e presidenta da Federação Espanhola de Sociedades de Sexologia, “demorou muito tempo até a ciência normativa levar a sério o tema do prazer feminino e, sem dúvida, os estudos feitos até agora, tanto para homens como para mulheres, são contemplados somente a partir de duas perspectivas: os que estão muito centrados na resposta fisiológica e os que veem exclusivamente o lado psicológico; mas não há nenhum que integre essas duas vertentes. E acho que seria algo essencial para se compreender melhor a resposta sexual”.
De acordo com os estudos, as mulheres lésbicas têm mais orgasmos do que as heterossexuais.
De acordo com os estudos, as mulheres lésbicas têm mais orgasmos do que as heterossexuais.

O orgasmo, uma aprendizagem que deve ser feita

Para Molero o maior inimigo do orgasmo é o desconhecimento do próprio corpo. “A vida é definida pela aprendizagem e a sexualidade também deve ser aprendida. Muitas mulheres desconhecem seus genitais, não sabem muito bem onde está seu clitóris e confundem os termos vagina e vulva. Os meninos se masturbam desde muito pequenos e na puberdade chegam a fazê-lo como um ato coletivo, falam disso; algo impensável entre as meninas. Quando as mulheres vêm à consulta e recebem a recomendação de masturbar-se para familiarizar-se com seus genitais costumam ver esse processo como algo imposto, uma obrigação desprovida de qualquer sinal de curiosidade. Algo que, certamente, tem muito a ver com a maneira como foram educadas. Elas esperam passar do desconhecimento e da atividade sexual nula da infância e adolescência, ao desfrute do sexo através de um companheiro, mas nem sempre é tão fácil”.
O relaxamento é outro elemento necessário ao prazer, já que os orgasmos não gostam dos ambientes carregados e com muito estresse e da sociedade do cansaço, tão bem explicada pelo filósofo Byung-Chui-Han. Graças às descobertas de Komisaruk, foi possível ver que as mulheres têm orgasmos facilmente, possuem mais ondas alfa em seus cérebros (as que são produzidas em estado de relaxamento); deixando assim mais espaço ao prazer.
“É muito difícil ter um orgasmo se você está nervoso”, diz Molero, “quando a parte vigilante está alerta, é impossível focar-se nas emoções e nos sentidos. É preciso estar em um modo relaxado, mas de desfrute, e a ansiedade é o inimigo número um do prazer. Nesse aspecto, os homens têm vantagem sobre nós, porque eles aprenderam a utilizar o sexo como método para relaxar, como um mecanismo natural de adaptação. Um homem pode ter um dia ruim, mas chega em casa e pode querer ter relações com sua companheira. É mais difícil que essa situação ocorra com uma mulher, ela precisa estar bem para querer sexo. Certamente, séculos de repressão (a mulher que aproveitava abertamente o sexo e o reconhecia não era bem vista) bloquearam esse mecanismo nas mulheres”.
O coitocentrismo, o conceber a relação sexual única e exclusivamente como um pênis que penetra uma vagina é também um modelo curto, limitado e que não satisfaz a todas. De fato, as lésbicas têm um índice de orgasmos muito mais elevado do que suas companheiras hétero. “Elas precisaram explorar mais seus corpos e conhecem melhor suas anatomias e zonas erógenas”, diz a sexóloga. “O clitóris é o centro do prazer feminino, mas a distinção entre orgasmo clitoriano e vaginal já parece algo obsoleto. Agora se fala de um complexo clitóris-uretra-vagina (zona CUV), onde estaria localizado o mapa do prazer e que incluiria o controverso ponto G”.
A resposta à falta de orgasmos pode estar também no consumo de certos remédios, como os antidepressivos e os ansiolíticos, e nos problemas de casal. “Não confiar e não se sentir acolhida pelo companheiro pode causar falta de prazer”, diz Francisca Molero, “e depois estão todos os possíveis boicotes que fazemos a nós mesmas (não mereço, não tenho o corpo que quero e deveria, etc). Existe um perfil de mulher que tem dificuldades para chegar ao orgasmo ou que nunca o teve, com traços comuns: são rígidas, controladoras, não se permitem apaixonar-se e podem chegar a confundir o prazer com o afã do controle”.
Como diz Valerie Tasso em seu livro Antimanual de Sexo (Assuntos de hoje), “não se tem um orgasmo, se aprende a tê-lo. Ou melhor dizendo, se aprende a ‘permitir-se’ tê-lo. É preciso instruir-se não só no conhecimento da própria reação sexual diante de determinados estímulos anatômicos, mas, principalmente, é preciso formar-se na difícil arte de deixar-se levar, de deixar que a decisão fique nas mãos de nossa resposta sexual e não de nossas ‘razões’. Quando a razão aparece, o orgasmo foge como os cordeiros do lobo (...) O papel do amante no processo tem muito menos importância do que a que se costuma atribuir a ele. Chegar ao orgasmo é uma decisão estritamente pessoal em que o amante é somente um elemento a mais dos que interpretamos em nossa decisão de deixar e não chegar ao eretismo. O orgasmo não nos procura, nós chegamos a ele sozinhos”.

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Rita Abundancia
El País

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