15/07/2018

Do tempo em que "esquerda era esquerda" e "direita era direita"...

Hoje, a direita costuma propagar que não há mais direita e esquerda. E a esquerda tenta roubar várias bandeiras da direita. Como dizia Alain Touraine sobre o Brasil: “Trata-se de um país peculiar: quem se diz socialista é socialdemocrata, quem se diz socialdemocrata é liberal, e quem se diz liberal é conservador”.


Uma das máximas que, vez ou outra, reaparece em terras tupiniquins é que na ditadura, a esquerda se unia. Mais ou menos. Quem levou surra de correntes dada pelos amiguinhos do MR-8 durante uma campanha pela eleição do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo não se recorda de tanta amizade. Mas havia a linha divisória, sem sombra de dúvida.

Esquerda era esquerda.
Em 1974, a esquerda guerrilheira havia sido dizimada. Não temos a contabilidade dos assassinados, mas é certo que foram mais de 500 vítimas desta sanguinária política de Estado financiada com impostos de cidadãos. Não há consenso sobre o número de torturados, mas se sabe que foram mais de 1.800, enjaulados em mais 240 prisões, clandestinas ou não.
O sadismo chegava próximo do pior submundo da insanidade, como na nomeação das salas de tortura do navio Raul Soares, rebocado do Rio de Janeiro até Santos. A prisão flutuante possuía três calabouços, batizados com nomes de boates:

“El Moroco, salão metálico, sem ventilação, ao lado da caldeira, ali os prisioneiros eram expostos a uma temperatura que passava dos 50 graus; Night in Day, uma pequena sala onde os presos ficavam com água gelada pelos joelhos; Casablanca, lugar que se despejava as fezes do navio. Os três calabouços eram usados para quebrar a resistência dos presos. Sindicalistas e políticos da Baixada Santista passaram pela prisão flutuante do Raul Soares, que foi desativada no dia 23 de outubro de 1964.” (matéria “Tortura durante a ditadura militar atingiu 1.843 presos políticos”, assinada por Alessandra Mello, do jornal Estado de Minas).
O fato é que a esquerda, na época dos estertores do regime militar, raramente falava em armas. Havia um grupo ou outro mais empolgado e anacrônico. Mas era traço. De 1974 a 1980, a quase totalidade dos agrupamentos (ou organizações de esquerda, cuja sigla “O” definia seu status de combate) já havia realizado sua autocrítica em relação às ações armadas que haviam afastado a luta pelo fim da ditadura dos temas de conversas de trabalhadores e população mais sofrida. Foi a senha para a aproximação com setores das igrejas católicas e protestantes, principalmente as envolvidas com os princípios da Teologia da Libertação. Muitas organizações não-governamentais e campanhas nasceram desta aliança. O trabalho de formação de lideranças foi se multiplicando país afora.
Por muito tempo ainda, as células semiclandestinas continuaram funcionando. Se encontravam em reuniões semanais para estudar documentos internos ou teóricos clássicos do marxismo ou para planejar e avaliar ações sindicais ou políticas. Todas as organizações de esquerda, contudo, já possuíam seus jornais distribuídos à luz do dia, o que facilitava a vida dos arapongas (bastando acompanhar a distribuição dos periódicos.
O que unia as esquerdas brasileiras era o fim da ditadura. Mas, em determinado momento, o debate sobre a construção de organizações autônomas dos trabalhadores e populações pobres dividiu a “grande família”. Algumas organizações tradicionais da esquerda brasileira se consideravam representantes legítimos da classe operária e não entendiam os motivos para a criação de organismos autônomos, não alinhados aos partidos e orientações de direções e cúpulas experimentadas. Renascia, no Brasil, a tradicional divergência sobre organizações de quadros ou organizações de massa. Outro tema que mais dividia que unia era a noção de “poder popular”, um mantra para qualquer pessoa de esquerda e que também dividiu os dirigentes da revolução russa (alguns juram de pés juntos que este foi um dos motivos da ruptura de Che Guevara com Fidel).
Mas, a esquerda era esquerda.
Contra a ditadura, é verdade, havia alianças com liberais e até conservadores éticos, que repudiavam a violência de Estado, a censura e a arbitrariedade. Durante a campanha das Diretas Já!, conheci Severo Gomes. Um gentleman. Profundamente respeitoso e paciente. Não devia ser fácil tolerar os “barbudinhos” com faca nos dentes, perseguidos e marginalizados pelo poder dos militares e ricos. Mas, aquele senhor que tinha um estranho tique nervoso quando falava, era pedagógico e didático. E firme. Havia sido ministro em dois governos militares (Castelo Branco e Geisel), mas se converteu à luta pela democracia, como Teotônio Vilela, que de udenista e senador pela ARENA, se revelou “Menestrel das Alagoas”.
Havia, ainda, os que usavam descaradamente a esquerda. Este era o caso de Orestes Quércia, que foi governador de São Paulo pelo PMDB. Numa das reuniões da Campanha das Diretas, na Assembleia Legislativa paulista, ouvi Quércia dizer, com um sorriso no canto da boca, que adorava trabalhar com a esquerda porque se matavam como poucos e nem pediam cachê. Nós, de esquerda, nos entreolhamos e focamos nosso melhor olhar irônico na meninada do MR-8.
A direita, contudo, era bem nítida. Primeiro, defendia o Estado Militar como garantidor da ordem social. Estado e nação se confundiam no seu discurso, tendo as armas como ameaça ao infantilismo doentio da sociedade civil. Erasmo Dias, o coronel violento da segurança pública paulista, quando retornou de uma visita à URSS, se revelou maravilhado. Fazia sentido.  Também adotava a crença que a economia é um jogo técnico e, que se alguém tem que perder e se sacrificar, é o trabalhador. Em suma, o trabalhador sempre terá que agradecer pela surra porque é para o seu bem.  Se a crise – informavam – se abatesse sobre as empresas, aí o mundo cairia porque não haveria como gerar empregos. Enfim, a lógica era simplória: perder empregos para gerar empregos no futuro. Entre um momento e outro, cada um que se virasse e pedisse ajuda ao santo favorito. Monetarismo e militarismo se uniam nesta unidade diabólica.
Havia, ainda, o discurso moralista que atacava a corrupção. Mas, cá entre nós, como hoje, era só discurso. O historiador Carlos Fico registrou entre 1968 e 1973, o período mais duro do regime militar, 1.153 processos abertos por corrupção no interior do governo. Entre os investigados ou condenados, “mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram funcionários públicos”. Nunca se roubou tanto no país. Por qual motivo? Porque num regime fechado, sem fiscalização ou possibilidade dos cidadãos controlarem os governos, forma-se uma cadeia de lealdades subterrâneas, um acobertando outro, o que facilita o deslize moral. Num regime fechado, o discurso contra a corrupção só vale para o outro.
Hoje, a direita costuma propagar que não há mais direita e esquerda. E a esquerda tenta roubar várias bandeiras da direita. Como dizia Alain Touraine sobre o Brasil: “Trata-se de um país peculiar: quem se diz socialista é socialdemocrata, quem se diz socialdemocrata é liberal, e quem se diz liberal é conservador”. Ao menos, hoje, sabemos: quem se diz conservador é direita, com uma queda para ser fascista. É esse pessoal que pede a volta da ditadura em nosso país.

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Rudá Ricci
Brasil 247

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