23/07/2018

“Os partidos também estão de olho nos Estados. E Bolsonaro não tem nada a oferecer”



Para o cientista político Fernando Guarnieri, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), o pré-candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), que deve ser confirmado como candidato de seu partido na convenção deste domingo, não tem nada a oferecer para os demais partidos. Nem recursos de campanha, nem alianças locais. Isso explica, segundo o especialista no funcionamento dos partidos brasileiros, porque nem mesmo siglas pequenas como o PR ou PRP apostem no ultraconservador.

Nesta entrevista ao EL PAÍS, ele afirma que a tendência é que o pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo, reúna uma grande base de apoio, incluindo os partidos do chamado centrão — que também estão flertando com o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) —, e cresça nas pesquisas. Ele argumenta que a atuação em bloco desse centrão é uma das novidades da campanha, mas também opina que pouca coisa deve mudar: os dois grandes polos da política nacional continuarão ser o PSDB e o PT, que são os que mais têm estrutura pelo Brasil.
Pergunta. Desde 1994 temos dois polos principais, PT e PSDB. Esses dois polos se mantêm para essas eleições, ou 2018 marca o fim desta polarização?
Resposta. Essa é a pergunta que todo mundo está se fazendo [risos]. Mas eu acho que esses dois polos vão permanecer. Essa coisa muito fragmentada, com muitos candidatos, vai se reduzir muito nos próximos dias. O círculo vai se fechando, deixando gente de fora. O Flávio Rocha já saiu, os pequenos começam a sair agora, e depois deve ser a vez dos mais graúdos, depois de negociarem bem a sua saída. E quem vai ficar? Vai ficar quem tem mais estrutura e que pode garantir melhores termos de troca. Você tem desde recursos que os partidos conseguem levantar até alianças locais. Esses são os dois fatores que vão pesar a favor de quem vai receber o apoio dos que estão desistindo.
P. Isso explica o fato do centrão estar entre Ciro Gomes e Geraldo Alckmin?
R. Sim. Mas acho que estão usando o Ciro para valorizar o passe, para vender mais caro o apoio ao Alckmin. Não acredito muito na intenção verdadeira de se juntarem ao Ciro. Acho que nem ele acredita muito nisso. O Alckmin é uma aposta mais certa para o centrão, pelos recursos que ele consegue alavancar. Ele vai conseguir desenhar um arco de centro-direita, coisa que o Bolsonaro não conseguiria fazer. Ele tem mais a oferecer em termos regionais, algumas chapas em alguns Estados...
P. Mas o Alckmin está muito atrás nas pesquisas. Por que os partidos pequenos preferem ir com ele ao invés de apoiar, por exemplo, Jair Bolsonaro (PSL), que está em primeiro?
R. Os caras são macaco velho, conhecem pesquisa e sabem o que elas significam neste momento. Esses 17% do Bolsonaro é ilusório, não tende a ficar assim. Ele não vai ter tempo de televisão, apenas 8 segundos. Isso faz muita diferença, porque o eleitor começa a levar a sério a coisa, a ver quem está aí, quais são as propostas... E o tempo de TV, a exposição dos candidatos, vai contar muito nesse sentido. Todos esses políticos mais antigos estão olhando e sabem disso, e sabem quem vai ter mais recursos. Eles não estão só de olho na eleição para presidente, eles estão de olho nas eleições nos Estados. E Bolsonaro não tem nada a oferecer. O Ciro e o seu PDT também têm pouquíssimo a oferecer em termos de apoios regionais. Já o PSDB é um partido que tem um monte de cabo eleitoral que pode ajudar a alavancar os deputados dessas bancadas todas. O deputado está aí para se reeleger, não está nem aí se é Bolsonaro, Ciro ou Alckmin. E como ele garante a reeleição? Participando de uma chapa vitoriosa. E uma chapa vitoriosa é geralmente a chapa que vai ter uma coligação forte, que consiga romper o quociente eleitoral varias vezes. Então, na hora H, ele vai olhar para a estrutura partidária mesmo. Se um candidato tem 17% ou 9%, ele sabe que isso muda.
P. O PT tem muita estrutura para oferecer. Como ele entra nesse jogo?
R. Tem muita estrutura, principalmente no Nordeste, com candidatos a Governo muito fortes. Então lá existe potencial de transferência de voto e de fazer chapas muito grandes que vão conseguir eleger deputados. O PT não é carta fora do baralho. Não sei a capacidade de transferência de voto do Lula, mas em todo caso feio não vai fazer. Então é também um outro polo que vai começar a agregar parceiros interessados em se eleger localmente.
P. Então o PT também tem capacidade de atrair os partidos pequenos?
R. Sim, principalmente os concentrados no Nordeste. Por exemplo, o PSB, que não é um partido pequeno, mas também não é o que era, tem uma penetração muito forte nas cidades pequenas do interior nordestino. Acaba que, pela estrutura partidária e pelos recursos que esses grandes partidos conseguem agregar aos pequenos, esses pequenos tendem a se unir a PT e PSDB. E tem o MDB também, mas o MDB tem a figura do Michel Temer, que tira votos. É muito tóxica. Mas esses três grandes partidos vão dar o tom os próximos dias, principalmente o ex-presidente Lula. A decisão de abandonar a candidatura ou não, de apoiar alguém ou não...
P. Estão todos à espera de Lula?
R. Ele tem que se resolver, não adianta segurar e deixar acabar as convenções. A não ser que ele queira bagunçar a coisa toda, mas isso não é do interesse do PT, principalmente por causa dos candidatos a governador lá no Nordeste. Lula não pode levar essa coisa até muito mais longe. Assim que ele se decidir, o jogo está formado e o círculo vai se fechar de vez.
P. A impressão que se tem é a de que o centrão está dando as cartas, flertando com vários candidatos... A iniciativa de pactuação está com o centrão, ao invés de estar com os grandes partidos?
R. Desde o impeachment o centrão descobriu um mecanismo de coordenar sua ação e jogar unido. Essa é uma grande novidade. A partir do momento que um time desse tamanho começa a jogar junto, ele se converte em uma força muito grande capaz de influenciar muito o jogo. Agora, a probabilidade de manterem essa coisa forte e unida é baixa. Porque quem chegar primeiro pega a melhor fatia da futura coalizão de governo.
P. Esse aprendizado pode resultar no ano que vem em uma fusão de siglas, que resulte em um grande partido?
R. Na Câmara eles já são um bloco. Mas a ideia de uma fusão depende muito das regras eleitorais, de que haja uma cláusula de barreira. Cada líder de um partido é como se fosse um senhor feudal, com todo o domínio. Acho difícil que eles abram mão disso.
P. A partir do ano que vem teremos um novo pacto, um novo desenho, de governança?
R. Acho difícil que haja uma grande diferença nessa questão de realinhamento. A composição da Câmara não vai ficar muito diferente, os partidos grandes vão continuar sendo esses que estão aí. E o grande aprendizado é que as elites políticas não podem ficar descoordenadas, que isso dá um péssimo resultado. O centrão estar jogando junto é uma novidade por causa disso. Foi muito ruim toda a elite política mais à direita ter deixado tudo na mão do Eduardo Cunha. Aquilo foi desestruturando o sistema de uma maneira muito forte. A tendência é que essas elites retomem o controle da coisa, inclusive para evitar investidas da Justiça.
conteúdo
Felipe Betim
São Paulo
El País

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