26/07/2018

Quando copiar um escritor não é uma fraude



Já tem algum tempo que observo com relativa curiosidade e desconfiança, devo reconhecer, a profusão de cursos de escrita criativa em oferta pelo país afora. Uma pesquisa rápida na internet transforma a mera suspeita em susto: são mais de 13 milhões de links sobre o assunto apenas em língua portuguesa. Algumas razões óbvias para isso podem ser apontadas: a profissionalização do escritor, a chegada (mesmo com delay) de experiências de cursos de escrita criativa ministradas em outros países, os caminhos cada vez mais tortuosos para se conseguir publicar um livro - longe do tempo em que o envio de um original às editoras via Correios ou internet era regra geral para a revelação de um grande nome inédito no mercado editorial.

Hoje é muito mais usual, e de certa forma até reconhecido por grandes editoras, que, dado o antigo volume de originais recebidos, prefere-se a avaliação de projeto de livros que já tenham algum tipo de chancela, a mediação de um crítico, de um escritor já conhecido, o que não deixa de ser a velha artimanha do “quem indica”.
Defini como curiosidade uma de minhas reações por saber que a crescente procura por cursos de escrita por aspirantes a escritores (alguns desses cursos propõem a busca e o encontro com a criatividade) corre em paralelo à reflexão teórica a respeito da não criatividade como um dos novos estados da literatura contemporânea. Ou seja, enquanto alguns apostam que a criatividade pode ser ensinada e tornar-se escritor é um projeto exequível, outros defendem novos tipos de procedimentos que corroem a própria ideia de criatividade. Alguns escritores, até mesmo no Brasil, já batizam seus procedimentos literários como remix, sampler, dublagem, adaptação ou coleção de linguagens. E isso, é bom que se diga, não tem nada a ver com plágio.
Se está difícil imaginar o que falo, vamos a dois casos concretos, o primeiro emplacado por um dos nomes que lança a discussão sobre a escrita não criativa, o poeta, crítico e professor da Universidade da Pensilvânia Kenneth Goldsmith, e o segundo, da dupla de poetas brasileiros Leonardo Gandolfi e Marília Garcia, autores de Trânsito (2016), adaptação dos procedimentos de Goldsmith. O norte-americano tem encabeçado há mais de dez anos a defesa de que muitos dos textos escritos na contemporaneidade, para não dizer todos, são resultado de apropriações de várias ordens, deixando à mostra os andaimes do edifício literário. A obra é o processo da escrita do texto e não o texto em si. Segundo essa lógica, a autoria do presente coloca em prática a máxima que titula um dos livros de Goldsmith: copiar é preciso, inventar não é preciso. Pois bem, em 2007, Goldsmith “causou” ao participar de evento na Casa Branca, performando Traffic, texto que em bom resumo é resultado da transcrição de 24 horas de relatórios de trânsito em um fim de semana em Nova Iorque, emitidos pelo rádio. Traffic compõe a Trilogia Americana conjuntamente com The Weather (2005), livro com transcrições de previsões do tempo diárias, e Sports (2008), transcrição na íntegra de cinco horas de um jogo de beisebol, de acordo com a narração esportiva. Goldsmith reitera em entrevistas que a plateia da Casa Branca em 2011, o que incluía o ex-presidente Barack Obama e a primeira-dama Michelle, delirou de alegria ao ouvir a leitura dos relatórios de tráfego, mas não reagiu ao recital das poesias de Walt Whitman e Hart Crane. Em defesa do escritor, há o argumento de que obras conceituais como a sua tem por objetivo fazer o público pensar mais que ler. O inusitado, aquilo que torna oxidável nossas práticas de escrita, teria a capacidade de criar novas obras, oferecer algo inovador ao leitor já habituado a múltiplas linguagens, seja pela internet, cinema e televisão.
Em 2016, levando a cabo a proposta experimental de Goldsmith, Leonardo Gandolfi e Marília Garcia adaptaram Traffic, publicado pela Luna Parque Edições como “Trânsito - versão compacta e dublada”. A dupla de poetas garantiu a assinatura da obra por Goldsmith seguido por seus nomes que aparecem como dubladores. Na versão brasileira, em vez de relatórios de trânsito de Nova Iorque, eles transcrevem o boletim de trânsito da cidade de São Paulo, dando cor local ao experimento a partir das particularidades da transmissão: no Brasil os congestionamentos são comentados por mais de um locutor de rádio e pelos ouvintes que ligam, escrevem ou gravam mensagens para a emissora. O resultado é algo do tipo: “E a Bandeirantes: como é que está? Quarenta minutos para subir a Bandeirantes, Imigrantes, um calvário, é o Clayton quem diz. Valeu, Clayton, muito obrigada, meu querido. Quando for a Ibiúna, vou procurar balas de coco e trazer para toda a equipe, ele diz”. O trabalho de Gandolfi e Garcia, mais que adaptar Goldsmith, abre brecha para uma nova leitura da cidade de São Paulo, a torna legível de outra maneira. O livro oferece uma outra lupa para a leitura da capital.
Ao que parece, textos como os descritos acima anseiam que se pense e se viva uma experiência estética de uma forma inovadora, ainda que isso desalinhe o jeitão a que fomos ensinados a ler até hoje e reconhecendo que a originalidade, se é que ela existe, talvez esteja no procedimento oferecido ao leitor e não propriamente na história contata, no recurso literário empregado, um pouco como sentencia Marjorie Perloff, em O gênio não original: poesia por outros meios no novo século, traduzido no Brasil em 2013.
Alguém pode perguntar o que a escrita não criativa tem de diferencial daquilo que foi praticado por nossos modernistas, do readymade de Duchamp, do dadaísmo ou até mesmo do T.S. Eliot de Terra Devastada (1922), acusado de usar citações em excesso. A pesquisadora Tatiana Capaverde lembra que de fato “apropriação” e “apropriacionismo” vêm lá dos anos 70, angaria mais adeptos dos 90 em diante e muda radicalmente nas últimas décadas. A diferença do agora para o que era praticado pelo Modernismo existe e tem duas razões de ser. Em primeiro lugar, porque o conceito de arte mudou nas últimas décadas e depois porque as tecnologias e seus usos no que diz respeito à criação e à recepção foram popularizadas. Nesse percurso, o leitor se transformou em autor-leitor, atribuindo valor ao texto, assumindo os trânsitos textuais, manipulando, dando significado a um texto já antes escrito. Portanto, é absolutamente possível que genialidade e criatividade, pelo menos pensadas como antigamente, não existam mais.
Voltando ao princípio de tudo, o que não se explica aos alunos dos cursos de escrita criativa por este mundo a fora, por mais que todas essas aulas sejam legítimas e muitas ministradas por escritores renomados, é que abrir mão das engessadas noções de autoria e escritura talvez seja um caminho mais interessante e pertinente para os dias de hoje. Sem falar que no “tudo se copia, nada se cria” pode estar a tal chave da genialidade.

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Edma de Góis
El País

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