23/08/2018

O que ainda pode impactar o eleitorado?



Em sua primeira pesquisa após o início oficial da campanha, divulgada na segunda-feira (20/08), o Instituto Ibope apontou que a corrida presidencial pouco se alterou desde a divulgação do último levantamento, há dois meses. Uma tendência confirmada no dia seguinte pela mais nova sondagem Datafolha.

Nestes dois meses, alguns pré-candidatos desistiram; vices foram definidos; alianças, fechadas; dois debates televisivos ocorreram; e os candidatos concederam dezenas de entrevistas e também foram atingidos por várias notícias negativas. Por enquanto, nada disso parece ter impactado de maneira decisiva o cenário.
Embora a pesquisa de junho do Ibope tivesse um leque de candidatos levemente diferente (alguns saíram da corrida), ficou claro com o novo levantamento que mais da metade dos eleitores continua a ser atraída por dois nomes.
A candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue demonstrando força, mesmo que o presidente continue preso e esteja virtualmente fora do pleito por causa da Lei da Ficha Limpa. O petista alcançou 37% na pesquisa do Ibope, 39% no Datafolha.
Jair Bolsonaro, por sua vez, continua a se solidificar no segundo lugar, ainda desafiando as apostas de que sua candidatura pode minguar pela falta de estrutura e capilaridade do seu partido, o nanico PSL. Ele apareceu com 18% e 20% das intenções de voto, nos cenários com e sem Lula do Ibope, respectivamente. No Datafolha, teve resultado similar: 19% e 22%.
Outros candidatos continuam empacados e só registram crescimento significativo em cenários sem o petista na corrida, tal como pesquisas anteriores já haviam demonstrado. Já Fernando Haddad (PT), indicado como vice de Lula e cotado como seu substituto, passou para 4% das intenções no cenário sem o ex-presidente no Datafolha e no Ibope – em junho, ele tinha 2%.
Os números também demonstram que, por enquanto, as leituras de atores do meio político de que a corrida estaria caminhando para a repetição da velha polarização PSDB x PT ainda não se confirmaram.
O papel do rádio e da TV
Para o cientista político Antonio Lavareda, o novo levantamento demonstra que ainda é muito difícil apontar tendências decisivas no pleito, e que os números só demonstram mais uma vez o quão imprevisível continua a corrida presidencial.
Segundo ele, o cenário só deve começar a mudar a partir do dia 31 de agosto, quando começa a propaganda eleitoral no rádio e TV.
"A campanha significativa só começa com a TV. Para a maior parte do eleitorado, a principal fonte de informação continua sendo esse meio. É possível esperar que a propaganda possa redefinir a disputa", afirma. 
O cientista político Carlos Pereira, da FGV-Rio, concorda que o "quadro da eleição mudou pouco", mesmo que a campanha tenha começado oficialmente no dia 16 de agosto.
"Os mecanismos tradicionais de recompensa em uma eleição ainda não estão sendo efetivamente usados. São o tempo de TV, as coligações, o uso da estrutura dos partidos nos estados, as conexões locais. Esses mecanismos tendem a se tornar mais fortes a partir do fim de agosto", disse. "Essa pesquisa mostra um quadro do momento."
"O que temos visto agora que mecanismos heterodoxos, como as redes sociais, estão sendo mais efetivos, e que meios ortodoxos, como a TV, ainda não foram empregados. Ainda é precipitado falar em tendências. É preciso lembrar o número de indecisos", disse.
Segundo a pesquisa Ibope, 22% dos eleitores não tem candidato no cenário com Lula. O percentual sobe para 38% sem o petista na disputa, o que abre espaço para que vários candidatos ampliem seu eleitorado.
De acordo com o Datafolha, com Lula, os votos declarados como brancos e nulos somam 11%, com 3% de indecisos. Sem o ex-presidente no páreo, os índices sobem respectivamente para 22% e 6%.
Esperar para ver
Lavareda, por sua vez, aponta que mesmo as intenções de voto de Bolsonaro, que sugerem que o deputado se consolidou na segunda posição, não são definitivas.
"Bolsonaro tem uma fatia entusiasmada do eleitorado, mas não existe uma consolidação nessa altura da eleição. Ainda há muito por vir. Não existe eleitor ‘definitivo' que ele não possa perder. Nem os casamentos são para a sempre", disse, lembrando que Bolsonaro enfrenta dificuldades, sobretudo na região Nordeste, para ampliar sua fatia.
Pereira também aponta que o percentual de votos de Bolsonaro, embora notável para um candidato de um partido nanico como o PSL, só deve começar a ser testado de fato quando a campanha começar na TV.
"Bolsonaro vai ter pouco tempo de TV e não tem coligações estaduais. Quando a campanha efetivamente começar, também começa a campanha negativa dos candidatos que têm mais tempo. Nesse ponto, Bolsonaro tenderá a sofrer", diz.
O cientista político também aponta que a posição de Marina Silva (Rede), que,  no Ibope, por exemplo, aparece com 6% no cenário com Lula e salta para 12% na ausência do petista – apontando que ela é uma das principais beneficiadas pela saída do ex-presidente –,  ainda não sugere uma tendência decisiva.
"É preciso esperar para ver o que vai acontecer. Dificilmente ela vai ter musculatura para sustentar esse percentual. Seu partido é muito pequeno. E a transferência de votos de Lula continua sendo uma incógnita", concluiu.
Já o cientista político Fernando Schüler, do Insper, vê o voto de Bolsonaro consolidado na pesquisa Ibope. “Basta ver que sua intenção de voto na pesquisa espontânea se aproxima da pesquisa estimulada. Só Lula se aproxima desses números. A diferença entre outros candidatos é brutal”, diz.
Na pesquisa espontânea do Ibope, quando os entrevistadores não apresentam os candidatos, Bolsonaro aparece com 15% dos votos no cenário com Lula. Na estimulada, tem 18%. Já Lula aparece com 37% na estimulada e tem 28% na espontânea. O restante dos candidatos não passa de 2% na espontânea.
Schüler, no entanto, afirma que os números sugerem que Bolsonaro parece “muito perto do teto” de votos que pode conquistar no primeiro turno. “Ele estabilizou, mas isso é positivo para sua estratégia focada no primeiro turno. Num pleito pulverizado, esse percentual pode ser suficiente para passar para o segundo. Ele agora trabalha para segurar esse eleitorado. Mantém o discurso em vez de ampliar. Assim evita desgaste”, diz.
Fator Lula
Tanto para Lavareda quanto para Pereira, o principal fator que continua a embaralhar as eleições é como o eleitorado de Lula vai se comportar diante de uma rejeição da candidatura pela Justiça Eleitoral.
Por enquanto, Haddad segue apenas como um porta-voz do ex-presidente, e não como seu substituto oficial. "É preciso ver como uma candidatura de Haddad já com o apoio de Lula vai ser testada", disse.
"Ainda não se sabe se Lula vai conseguir transferir esse votos para seu candidato ou se eles vão se fragmentar", disse Pereira, apontando ainda que é preciso esperar que resultados a máquina de alianças de Geraldo Alckmin (PSDB), que deve contar com 44% do tempo de TV, será capaz de entregar.
Até lá, a corrida continua imprevisível.

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DW

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