16/09/2018

Onde a crise de 2008 pode se repetir



Há dez anos, a bolha do mercado imobiliário americano estourava e lançava a economia dos Estados Unidos numa recessão. O mercado de ações despencou, quase 7 bilhões de dólares de investidores sumiram no ar. Em dois anos, quase 9 milhões de pessoas perderam o emprego no país. A conta ficou para o contribuinte, e o Congresso aprovou a chamada Lei Dodd-Frank, que elevou o rigor na regulamentação do setor financeiro.

Como resposta à crise, bancos centrais ao redor do planeta baixaram os juros para zero e encheram os mercados de dinheiro, na esperança de que as empresas fizessem empréstimos nos bancos para voltar a investir e de que os consumidores usassem o crédito barato para consumir mais. O plano deu certo, e a economia voltou a crescer.
Nos últimos trimestres, a economia dos Estados Unidos cresceu acima de 4%, as empresas anunciaram lucros recordes, o mercado de trabalho registrou ocupação quase total, e a bolsa de valores de Wall Street não parou de subir. Nas últimas semanas, duas empresas dos Estados Unidos superaram o valor de mercado de 1 trilhão de dólares: Apple e Amazon.
O otimismo dos consumidores é o mais elevado em dez anos. O presidente Donald Trump festeja, no Twitter, os "resultados fantásticos" da economia. Até mesmo o Fed, o banco central dos EUA, mostra-se seguidamente otimista em relação à conjuntura econômica.
Mas há um porém. A política de dinheiro barato elevou o endividamento de consumidores, empresas e governos. Desde os primórdios da crise até 2017, a dívida total global subiu 74%, para um valor recorde de 247 trilhões de dólares, segundo um estudo da empresa de consultoria McKinsey. Isso é 13 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA, a maior economia do mundo.
E só no primeiro trimestre de 2018, a dívida total global subiu mais 11% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto de Finanças Internacionais, uma associação mundial de organizações financeiras. Um superaquecimento do mercado de crédito contribui para a desaceleração da atividade econômica, comenta o economista Itay Goldstein, da Universidade da Pensilvânia.
A política de dinheiro barato tem ainda outro efeito: ela torna atraentes os investimentos de alto risco e elevado retorno. São papéis que pagam juros elevados em pouco tempo, mas em contrapartida envolvem alto risco para o investidor, por exemplo, porque o emissor tem um histórico de mau pagador ou está altamente endividado. Quando papéis seguros passam a não pagar mais juros, muitos investidores se voltam para esses títulos de elevado risco.
Assim, grande parte dos investimentos feitos no mundo é de títulos de alto risco, muitas vezes chamados junk bonds. Em todo o mundo, o valor total de empréstimos desse gênero está em torno de 2 trilhões de dólares ao ano, o que é duas vezes mais do que em 2007.
"Quanto melhor estiver a economia, tanto mais predispostos ao risco ficam os investidores", afirma Goldstein. Ele investigou o quanto investidores institucionais, como Vanguard e Black Rock, tendem a transferir o dinheiro de seus clientes de papéis seguros para papéis de elevado risco em tempos de crescimento econômico. Diante da alta procura por junk bonds, a conclusão é que os investidores estão se sentido extremamente seguros no momento.
Dívidas elevadas se tornam perigosas quando os calotes se multiplicam. E estes se tornam mais prováveis quando os juros sobem – como ocorre no momento. Pois, para pagar as atuais dívidas, muitas empresas precisam fazer novos empréstimos – a juros maiores. Isso eleva os custos delas, e as chances de não poderem mais arcar com suas dívidas.
E isso não é tudo: para os consumidores, sobem os juros no cartão de crédito e das prestações da casa própria e do carro. Na dúvida, eles param de gastar e de pegar mais dinheiro emprestado e apertam o cinto. O dinheiro que eles têm fica parado e não vai parar no caixa de empresas. Para estas, trata-se de uma sobrecarga dupla, pois, além de arcarem com custos mais elevados por causa da alta dos juros, elas ainda faturam menos.
Nesse ponto, o problema não está nos bancos. Desde a crise, eles trabalham dentro de uma regulamentação muito mais forte, comenta Susan Lund, uma das autoras do estudo da McKinsey. A montanha de dívidas das empresas chega a 66 trilhões de dólares em todo o mundo, afirma a empresa de consultoria. A combinação de juros em alta, demanda em queda e uma conjuntura lenta pode fazer com que o perigo, desta vez, esteja nas empresas.
O elevado endividamento das empresas pode se refletir também no mercado de ações. Pois, com o dinheiro que pegaram emprestado, muitas empresas fizeram sobretudo uma coisa: compraram de volta suas próprias ações. A recompra de ações está num nível recorde. As 500 principais empresas listada no índice de Wall Street vão colocar 1 trilhão de dólares na compra das próprias ações ao longo deste ano. Isso explica porque a bolsa de Wall Street não para de subir, pois as empresas estão elevando a demanda pelas suas próprias ações. Também empresas europeias vão investir, este ano, 10 bilhões de dólares em recompra de ações.
A atual fase de recuperação é a segunda mais longa da história dos EUA. Só que fases cíclicas de crescimento e retração são comuns, comenta o economista Lakshman Achuthan. Ele é o fundador do Instituto Economic Cycle Research, que estuda o comportamento cíclico da economia.
Uma crise como a de 2008 leva à queda de juros. Consumidores, governos e empresas fazem empréstimos baratos, e suas dívidas crescem, assim como a economia. Para impedir um superaquecimento da economia, que se reflete na alta da inflação, os bancos centrais elevam de novo os juros. O ciclo se fecha.
Achuthan prevê o desaquecimento da economia dos EUA. Investidores pensam da mesma maneira. O megainvestidor Ray Dalio, fundador do maior fundo de cobertura (hedge) do mundo, o Bridgewater Associates, avalia que a economia americana ainda não formou uma bolha, mas está perto disso. Para ele, o risco de uma recessão antes da eleição de 2020 é de 70% – ou seja, muito elevado.

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