03/09/2018

Sair da 'bolha' para ouvir opiniões políticas diferentes pode acentuar polarização, sugere estudo



A formação de "bolhas" sempre rondou o debate sobre o papel das redes sociais na participação política. Uma das hipóteses mais levantadas é a de que a interação na internet, mediada por algoritmos, acabaria por aproximar quem pensa e vive parecido, e afastar o contraditório.
Mas os resultados de um estudo sociológico recém-publicado no periódico científico americano PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) sugerem outra perspectiva: a de que a exposição a pontos de vista diferentes pode intensificar a polarização política.
Pesquisadores das universidades de Duke, Brigham Young e Nova York, nos Estados Unidos, "mediram" mudanças no posicionamento ideológico de usuários do Twitter após a exposição a contas associadas a orientações oponentes – aos Democratas ou Republicanos, partidos majoritários no país e, em linhas gerais, mais associados à esquerda e à direita, respectivamente.
Após o teste, republicanos apresentaram tendência substancial a manifestar posições mais conservadoras – em uma escala de sete pontos, um aumento de pelo menos 0,12 pontos (no caso de internautas que responderam aos questionários com mais assiduidade, o valor chega a 0,6 pontos; portanto, considera-se um intervalo de 0,11 e 0,59).
Já entre os democratas, houve uma pequena acentuação em posições liberais, mas esta foi estatisticamente insignificante.

Estudo se destaca pela abrangência

Segundo os autores, a pesquisa publicada no PNAS é uma das maiores sobre a relação entre posição política e redes sociais já feita: foram recrutados 1,6 mil usuários do Twitter. Eles foram remunerados e receberam, durante um mês, 24 mensagens por dia enviadas por robôs configurados para transmitir conteúdo de políticos, ativistas e veículos da mídia associados a um dos espectros ideológicos. Antes e depois desta exposição, eles preencheram questionários sobre algumas pautas.
No entanto, os pesquisadores reconhecem algumas limitações importantes, como o fato do grupo recrutado não ser representativo da população americana (sendo inclusive composto majoritariamente pela elite); ou a influência da remuneração e do conteúdo da mensagem na recepção dos tuítes.
"É possível que os usuários do Twitter simplesmente ignorem mensagens contraditórias na ausência de incentivos como estes (financeiros)", diz o artigo.
"É possível que nossas descobertas resultem de uma exposição maior a informações sobre política, e não exposição a mensagens contrárias por si só", acrescentam os pesquisadores em outro trecho. 

Acentuação de posições conservadoras entre republicanos

Ainda de acordo com o artigo, uma vasta parte da literatura científica sugere que o contato entre grupos oponentes pode acabar diminuindo a polarização, uma vez que interações positivas levariam à quebra de estereótipos.
No entanto, o trabalho publicado no PNAS se aproxima de outras correntes. Uma delas indica que pessoas expostas a mensagens em conflito com seus pontos de vista acentuam a percepção das diferenças entre grupos e aumentam o comprometimento com crenças preexistentes.
Outro ramo da ciência aponta que conservadores, em contraposição a liberais, teriam maior tendência a persistir em suas crenças após a exposição a ideias diferentes.
"Isto se baseia na indicação de que conservadores se atrelam a valores que priorizam a certeza e a tradição, enquanto liberais valorizam a mudança e a diversidade", dizem os autores do artigo, liderado pelo sociólogo Christopher Bail.

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