02/03/2019

Crítica, espírito crítico e outras obviedades


Não poderia me furtar de publicar este belo texto de Mustafá Ali Kanso:
..."Em uma de minhas conferências sobre esse tema, tão comum nas ciências e nas artes, fiquei surpreso ao constatar que boa parte do público presente não tinha clareza sobre o conceito, e entendia a crítica como sendo a “arte de apontar defeitos” ou mesmo algo como um direito insofismável de achincalhar o outro.
Tenho observado, também, em muitas escolas, onde alunos e pais de alunos concorrem em “criticar” o trabalho do professor, principalmente quando chamados à coordenação em virtude do péssimo rendimento escolar, seja pelo mau comportamento em sala de aula, seja pelos resultados desalentadores nos exames.
E nesse caso a “crítica” tem sabor de desforra e produz a ilusão de isenção.
Ao apontar os defeitos do professor, quando não da escola, alguns alunos e pais de alunos acreditam que podem, a partir daí, se eximir do cumprimento de seu papel como protagonistas do processo de ensino-aprendizagem.
Na crença popular essa ideia fica patente com o bordão:
Se meu filho tirou dez – é um gênio! Agora, se tirou zero é porque o professor e/ou a escola não presta!
Esse “criticar” mal executado presta um desserviço à comunidade, pois esvazia seu potencial de aprimoramento, tanto do professor quanto do aluno. Ao mesmo tempo, que, ao banalizar um dos principais direitos e atributos que tem o ser humano, que é o de criticar – expõe o que há de pior no ser humano:


- O egocentrismo.
E isso é manifestado, e de forma eloquente, na sua incapacidade de aplicar em si mesmo o rigor da severa crítica que prodigaliza aos demais.
E em muitas outras áreas isso é observado.
A pseudo-crítica das falhas estruturais como desculpa para não se cumprir com o seu papel!
Também tenho percebido em muitos fóruns na internet, onde o anonimato obtido pelo uso de um nickname e o trato impessoal usado em e-mails ou posts , transforma esse direito de criticar num pretexto para atacar, para achincalhar ou menosprezar a pessoa do outro lado.
Alguns pela simples diversão de discordar por discordar.
Outros pela necessidade de propagandear sua ideologia, sua crença, etc. e por essa razão atacar decididamente, não o artigo, mas o articulista.
Ou, ainda, esse ataques se darão por simples vaidade:
– “Afinal com que direito o articulista desse site ousa ser mais inteligente e/ou mais informado que eu”?
Ora, o termo “crítica” deriva etimologicamente do grego Kritikè e significa “discernir”.
Assim, criticar é em seu conceito político-filosófico, a faculdade de discernir o valor das coisas, dos eventos, dos feitos e das pessoas.
Está intimamente ligado ao juízo de valor e ao exercício da razão.
Segundo Kant, a crítica é uma avaliação ou um julgamento de mérito.
E tal julgamento pode ser:
• Estético, se contempla uma obra de arte;
• Lógico, se contempla um raciocínio;
• Intelectual, se contempla um conceito, uma teoria ou um experimento e
• Moral, quando contempla uma conduta.
Ao julgar, busca-se a equanimidade e a justiça.
O julgamento para ser equânime, deve ser isento da intencionalidade de provocar dano e pleno de recursos da razão, fundamentado evidentemente no conhecimento e no anseio pelo bem.
Na crítica, busca-se apontar não só os defeitos, mas também as qualidades e valores e com isso avaliar a extensão dessa mesma qualidade seja da obra de arte, do trabalho científico, do conceito, do argumento ou da conduta objetivando o seu reconhecimento, aprimoramento e/ou superação;
A crítica propriamente dita nunca é dirigida à pessoa. Sempre à suas ideias, obras, argumentos ou comportamentos.
Mais que um exercício de sintaxe, esse fato diferencia a crítica verdadeira do achincalhe.
Pois ideias, obras, comportamentos e argumentos não são a identidade.
A pessoa é categoria moral e é infinitamente maior que seu simples comportamento episódico ou somatório de algumas de suas ideias e argumentos ou o somatório de todas as suas obras.
O achincalhe, que significa humilhar, ridicularizar e debochar não é considerado em termos jurídicos ou filosóficos como “crítica” e sim uma perversão de seu significado.
Em caso público pode ter consequências sérias, tais como processos por perdas e danos, derivando o achincalhe para a injúria, calúnia e difamação – todos previstos pelo código penal.
De acordo com Dr. Ricardo Antônio L. Camargo, “também se configura o achincalhe quando se imputa a alguém fato depreciativo e inverídico ou quando se lhe diz algo gratuitamente ofensivo à dignidade e ao decoro”.
“O achincalhe é sempre corrosivo, é sempre destrutivo, é sempre a base de todos os conflitos que extrapolem motivos puramente materiais. Estereótipos, preconceitos e mesmo ódios passam a ser considerados como o metro pelo qual se medirá a bondade ou a maldade das condutas.”
“Quando o fato imputado constitui crime, estamos diante do tipo calúnia. Quando o fato é ofensivo à reputação, estamos diante da difamação. E quando se ofende a dignidade e o decoro de alguém, sem lhe imputar fato, o que se faz é injuriá-lo”.
Em resumo, a verdadeira crítica vale-se de argumentos consistentes, fundamentados no conhecimento e que objetivam julgamentos e avaliações sobre o valor (ou a falta dele) de uma obra, conceito, argumentos, experimentos ou conduta e nada tem a ver com ataques pessoais e achincalhes. Isso se denomina agressão.
A crítica, juntamente com o ceticismo e o princípio da falseabilidade, tem um papel preponderante na evolução da ciência.
Nesse contexto, sem a crítica muitos erros científicos seriam perpetuados.
Daí, propugnarmos na sociedade o desenvolvimento do espírito crítico e a defesa da liberdade para exercê-lo.
E ter espírito crítico é preconizar a capacidade humana de julgamento visando o bem comum. Criticar é julgar para escolher, para selecionar, para promover a melhora e a superação e exaltar o útil, o criativo, o ético e o estético, para o bem e evolução da humanidade.
Dessa forma, a crítica propriamente dita, corretamente praticada é sempre construtiva.
Mas, para tal necessita-se:
• Humildade;
• Senso de humanidade;
• Tato e polidez;
• Adequação;
E acima de tudo:
• Conhecimento.
Não há como criticar algo que não se conhece:
• Um crítico literário deve ter conhecimento sobre literatura.
• Um crítico de trabalhos científicos deve ter conhecimento pelo menos sobre a área científica objeto de sua crítica.
E assim por diante.
Ora, isso é óbvio!
No entanto, parece que no mundo de hoje as obviedades não são percebidas assim tão obviamente. "...



[Fontes de consulta: Crítica da Faculdade de Julgar, Emmanuel Kant, Arte de ter razão, Schopenhauer e O que é ser Crítico - Ensaio de Raymundo de Lima]


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