13/03/2019

'Pensamento crítico não é copiar críticas dos outros': especialistas debatem meios de combate às 'fake news'



Como interromper a propagação de boatos e notícias falsas na internet?
Para um grupo de cinco jornalistas, pesquisadores e influenciadores digitais reunidos pela BBC News Brasil no seminário "Beyond Fake News - Em Busca de Soluções", a resposta passa por educar melhor os leitores, de um lado, e por tornar conteúdo da imprensa mais atraente, mantendo a credibilidade.
Cláudia Costin é hoje diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Filha de imigrantes romenos e neta de sobreviventes do Holocausto, ela contou ter ouvido relatos sobre o uso de notícias falsas para criar ódio contra minorias.
Segundo ela, este costuma ser um dos objetivos por detrás da produção dos boatos - incitar ódio, motivar a guerra e atingir objetivos políticos seriam outros.
Costin defende que a melhor forma de combate à doutrinação e às notícias falsas é ensinar a pensar criticamente e discutir políticas públicas.
Para ela, "pensamento crítico é aprender a pensar criticamente, e não copiar a crítica que o outro faz. E combater doutrinação não é criar uma lei que tire a voz dos professores [referência ao projeto Escola sem Partido], porque isso não vai resolver, mas sim ensinar a pensar".
Costin afirmou ainda que as notícias falsas são usadas também para desviar a atenção do público de questões mais prementes, como saúde e educação.
"Se eu começo um debate eleitoral como fez [o presidente americano] Donald Trump falando de emails da [adversária democrata na eleição de 2016] Hillary Clinton, eu não discuto o que vai ser feito em outras áreas, como saúde, educação e infraestrutura", diz ela, que foi ministra de Administração e Reforma do Estado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de 1995 a 2002.
Camila Marques, responsável pelas estratégias digitais da Folha de S. Paulo, comparou o ambiente de fake news a um esgoto a céu aberto. Para ela, é necessário dar saídas a quem sofre com a desinformação, mas o problema só será resolvido por "obras de infraestrutura": nessa analogia, a solução para o problema das notícias falsas passa pela educação. "O jornalismo não tem mais tempo para se reinventar."

Neutralidade da rede em jogo

A alienação do público no ambiente democrático passa também pelas redes sociais, afirmou Yasodara Córdova, pesquisadora-sênior sobre desinformação e dados na Digital Harvard Kennedy School.
Segundo ela, o acesso à informação acaba prejudicado quando redes sociais como o Facebook ferem a neutralidade da rede - isto é, o princípio segundo o qual um provedor de internet deve fornecer aos consumidores acesso igualitário a todo conteúdo.
"No Brasil, 60% dos celulares são pré-pagos e têm acesso grátis a essas redes sociais, oferecido pelas operadoras [que não descontam do pacote de dados o acesso a esses serviços]. Então, essas pessoas que usam pré-pago ficam rendidas a essas fontes de informação e interação."
Para ela, as pessoas recebem as informações por essas plataformas, mas não saem dali para ler a notícia inteira ou mesmo checar informações por causa de diversas barreiras, a exemplo da econômica.
Nathalia Arcuri, jornalista e fundadora do Me Poupe!, plataforma de finanças pessoais e educação financeira que inclui um canal no YouTube com 3,2 milhões de seguidores, defende uma aproximação dos leitores a partir de mudanças em paradigmas jornalísticos, como uma linguagem dura e objetiva que se aproxima mais da academia que do leitor.
"Além da informação certa e apurada, é preciso torná-la atraente, sedutora e quase sensual a ponto de atrair as pessoaa para aquelas informações", afirmou. Para ela, a grande mídia precisa ter intenção de se aproximar do público e trabalhar pela educação dele.

Modelo de negócios 'tradicional' atrapalhou

Octavio Guedes, jornalista da GloboNews, avaliou que o modelo de negócio capaz de financiar o jornalismo profissional é baseado principalmente em credibilidade. "Você pode até ter um monte de clique, mas isso é fácil e efêmero. Jornalismo vive de relevância e credibilidade."
Para ele, a estratégia de negócio adotada pela grande mídia favoreceu, em certa medida, a disseminação de notícias falsas porque a internet foi considerada inicialmente uma ameaça aos veículos, e não uma oportunidade.
Guedes também fez considerações sobre os ataques sofridos por jornalistas no exercício da função, no Brasil - recentemente, ele próprio foi alvo de ataques nas redes depois de um blog postar uma foto sua almoçando com o chefe do Ministério Público do Estado do Rio, Eduardo Gussen. Entre outros casos, o MP-RJ apura as suspeitas de corrupção envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) - filho do presidente Jair Bolsonaro - e seu ex-assessor Fabrício Queiroz.
O profissional relembrou uma ocasião, nos anos 1990, quando o então governador interino do Rio de Janeiro cancelou uma entrevista coletiva por causa da presença de Guedes. "Eu voltei para a redação bufando. Meu editor da época me disse. 'Cara, faz o que você sabe fazer. Faça jornalismo'. E é isso. Agora, me sinto da mesma maneira. Indignado, mas com a consciência de que não podemos entrar no jogo. De ver o outro como inimigo político, como adversário. Nós não somos isso", disse ele.

O que são 'fake news'

A BBC considera fake news informações falsas distribuídas intencionalmente, geralmente com fins políticos ou comerciais. "O propósito é convencer as pessoas a pensarem de uma certa maneira, a votarem de uma certa maneira, ou ganhar dinheiro de publicidade toda vez que alguém clica em um conteúdo fraudulento", disse o diretor do BBC World Service Group, Jamie Angus na abertura do evento.
Ele afirmou que, no Brasil, a desinformação compartilhada nas redes pode causar mortes - assim como informações falsas sobre sequestros de crianças provocaram uma série de linchamentos na Índia e no México.
"Comunidades em favelas recebem rumores falsos sobre onde tiroteios ocorrem, vítimas são injustamente associadas à criminalidade numa tentativa de justificar essas mortes."
Ele citou reportagens da BBC News Brasil que expuseram táticas de disseminação de fake news, entre as quais a criação de perfis falsos para manipular a opinião pública nas eleições de 2010 e 2014.

Beyond Fake News

Desde o início da manhã desta terça-feira, a BBC News Brasil realiza o seminário "Beyond Fake News - Em Busca de Soluções", para discutir o avanço da desinformação no Brasil e no mundo.
O projeto é realizado pelo Serviço Mundial da BBC, que transmite conteúdo em mais de 40 idiomas ao redor do mundo. O Brasil é o quarto país a receber a iniciativa, que já foi realizada na Índia, no Quênia e na Nigéria.
O evento - gratuito e aberto ao público - está sendo realizado no auditório do Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo.
A fala de abertura ficou a cargo do diretor do World Service Group, Jamie Angus, e o evento tem representantes da academia, das redes sociais, do Jornalismo e da Educação.


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BBC

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