16/04/2019

O que é Candida auris, o perigoso fungo resistente a medicamentos que se espalha pelo mundo



Em 2015, a especialista em doenças infecciosas Johanna Rhodes, do Imperial College London, recebeu uma chamada de emergência de um hospital nos arredores de Londres.
Dois pacientes tinham uma infecção que parecia resistente a remédios e estava se espalhando pelo hospital sem que ninguém entendesse como.
"Até aquele momento a comunidade científica praticamente não havia ouvido falar do Candida auris", conta Rhodes à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"No hospital havia dois pacientes infectados com o micro-organismo, mas não parecia algo muito sério, até que perceberam que o fungo havia se espalhado pelas paredes, pelos móveis e por toda superfície do local", diz ela.
O fungo era muito difícil de identificar porque ninguém sabia direito o que estava procurando. "Me chamaram para que os ajudasse a entender como e por que ele estava se espalhando", diz Rhodes.
O fungo não estava se espalhando apenas pelo hospital de Londres, mas pelo mundo. 

O que é o Candida auris

O Candida auris é uma espécie de fungo que cresce como levedura e foi identificado pela primeira vez há uma década.
"Não sabemos qual a sua origem, mas ele foi descrito pela primeira vez em 2009, ao ser isolado após ter sido encontrado no canal auditivo de um paciente na Coreia do Sul", explica a especialista.
Alguns anos mais tarde, ele apareceu no Japão e começaram a surgir surtos na Índia, na África do Sul, na Venezuela, na Colômbia, nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Espanha.
O nome do micro-organismo é parecido com o fungo Candida albicans, um dos principais causadores de candidíase, pois ambos são do mesmo gênero (Candida) mas são espécies bem diferentes. A candidíase por C. albicans é uma doença comum que pode afetar a pele, as unhas e órgãos genitais, e é fácil de tratar.
Já a infecção pelo Candida auris é resistente a medicamentos e pode ser fatal, explica à BBC Brasil o infecctologista Alberto Colombo, professor da Unifesp e especialista em contaminação com fungos.
Segundo o infectologista, é possível ser colonizado de forma passageira pelo C. auris na pele ou na mucosa sem ter problemas. O fungo apresenta risco real se contaminar a corrente sanguínea.
Para a pessoa ser infectada, é preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de catéter venoso central) ou tenha o sistema imunológico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva por longos períodos e com uso prévio de antibióticos ou antifúngicos também são considerados grupo de risco para a contaminação.
Algumas pesquisas apontam um índice de mortalidade de 59% para infecções com C. auris, segundo o médico André Mário Doi, patologista do setor de microbiologia do Hospital Albert Einstein e autor de estudos sobre a espécie. 

Um fungo resistente

Janiel Nett, professora assistente do Departamento de Medicina e Microbiologia Médica e Imunológica da Universidade de Winsconsin, nos EUA, disse à BBC Mundo que diferentes variantes do fungo começaram a aparecer em quatro continentes ao mesmo tempo.
"Uma aparição assim simultânea não tem precedente", afirma Rhodes, do Imperial College, de Londres. "E o que mais nos preocupa é que todas as variantes mostraram uma forte resistência aos remédios."
Colombo explica que isso é resultado do processo evolutivo do fungo. "O Candida auris sofreu um processo de especialização. Nasceu em uma época em que há muito uso de substâncias antimicrobianas, muitos antifúngicos, e nesse ambiente de pressão seletiva a espécie se torna resistente", explica o infectologista da Unifesp.
O processo é bem parecido com o de surgimento de bactérias resistentes a antibióticos. Os antifúngicos matam quase todos os fungos, mas alguns sobrevivem – justamente os que possuem mutações que os tornam resistentes ao veneno. Estes se reproduzem, e as gerações seguintes herdam os genes que tornaram os antepassados resistentes. A espécie vai, assim, se tornando cada vez mais resistente a medicamentos.
Nett explica que mais de 90% das infecções causadas pelo C. auris são resistentes ao menos a um medicamento, enquanto 30% são resistentes a dois ou mais remédios.
O hospital em Londres onde Rhodes identificou o fungo em 2015 acabou conseguindo erradicá-lo, mas não foi fácil.
Uma das principais "habilidades" adquiridas pelo C. auris é a de persistir no ambiente inanimado, ou seja, ficar vivo fora do corpo humano. "Ele contamina o ambiente hospitalar e fica vivo por semanas", diz Colombo.
O fungo também consegue sobreviver na boca e na pele de pessoas que já foram tratadas: a pessoa é curada da infecção na corrente sanguínea, mas o fungo sobrevive superficialmente por dias.
Segundo a Anvisa, o modo exato de transmissão não é conhecido. "Evidências iniciais sugerem que o organismo pode se disseminar em ambientes médicos por contato com superfícies ou equipamentos contaminados, ou de pessoa para pessoa", afirma a agência.
No entanto, a experiência durante os surtos registrados aponta que o fungo pode "contaminar substancialmente o ambiente de quartos de doentes colonizados ou infectados."
"A transmissão diretamente de artigos e equipamentos de assistência ao paciente (tais como estetoscópios, termômetros, esfigmomanômetros, entre outros) é um risco particular, porém isso não impede a transmissão através das mãos dos profissionais de saúde e as necessidades de higiene das mãos devem ser rigorosamente respeitadas."
Os Estados Unidos tiveram um total de 537 casos de Candida auris, a maioria em hospitais. Segundo o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA), quase metade dos pacientes que contraíram o fungo morreram em noventa dias.
Embora o fungo seja um potencial problema de saúde pública, Rhodes diz que as pessoas não devem se preocupar em excesso.

Chegando perto

Em 2017, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) emitiu um comunicado de risco relatando surtos de C. auris em serviços de saúde da América Latina, descrevendo o fungo como uma ameaça à saúde global.
Segundo a Anvisa, o primeiro surto na América Latina foi detectado em Maracaibo, na Venezuela, em 2013, afetando 18 pacientes - 13 deles bebês.
O país teve outros casos, alguns que não chegaram a ser oficialmente registrados, segundo Jaime Torres, chefe da seção de doenças infecciosas do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela.
"Não creio que vamos ter uma epidemia de C. auris na Venezuela, mas cremos que ele pode causar infecção em pacientes que já estão doentes", disse Torres à BBC Mundo.
Não existe nenhum caso confirmado de infecção no Brasil até agora. Mas como o fungo é difícil de identificar, isso não quer dizer que ele não tenha entrado no país.
"Com a globalização e o fato da doença sobreviver muito tempo em superfícies inanimadas, o risco da doença chegar ao Brasil é grande", alerta Alberto Colombo.
E a maioria dos laboratórios do país – e do continente – não está preparada para identificá-lo.
"Temos um sistema de vigilância muito preparado para detectar surtos de bactérias e vírus, mas não temos o mesmo sistema para detecção de fungos", afirma Colombo. "O sistema de saúde, tanto público quanto privado, com raras exceções, não têm condições de identificar corretamente o fungo."
Uma pesquisa publicada em 2017 por Alessandro Pasqualotto, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, analisou 130 laboratórios de centros médicos de referência na América Latina e descobriu que só 10% deles têm capacidade de detecção de doenças invasivas de fungos de acordo com padrões europeus.
Segundo a Anvisa, o surto em 2016 em Cartagena, na Colômbia, é um exemplo de como o micro-organismo é difícil de identificar. Cinco casos de infecção foram identificados como três fungos diferentes até um método mais moderno de análise diagnosticar o patógeno corretamente como C. auris.
"É por isso que a Anvisa recomenda que, em caso de dúvida, as amostras sejam enviadas para os laboratórios de referência", diz o patologista André Mário Doi.
Atualmente a maioria dos hospitais e laboratórios aptos a fazer o diagnóstico está na região sudeste, mas a Unifesp fez uma parceria com o Hospital Universitário de Roraima para fazer uma vigilância da possível entrada do fungo no país.
"É preciso discutir a norma técnica da Anvisa para que o sistema de saúde esteja preparado, e criar um sistema de vigilância, pelo menos nos hospitais-sentinela – os que são referência em cada região", diz Colombo.


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