31/05/2019

Brasil em recessão 'técnica'?



O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil caiu 0,2% no primeiro trimestre, em relação ao quarto trimestre de 2018, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado coloca o país na fronteira de uma recessão técnica, um jargão utilizado por economistas para explicar quando a economia deixa de crescer por dois trimestres consecutivos, o que põe a política econômica do Governo Bolsonaro em alerta.

Este foi o primeiro resultado negativo desde o quarto trimestre de 2016 (-2,3%) e foi puxado, em grande parte, pelos recuos da indústria (-0,7%) e agropecuária (-0,5%). A forte queda na indústria extrativa (-6,3%) teve um grande peso no resultado. “O incidente de Brumadinho e o consequente estado de alerta de outros sítios de mineração afetaram todo o setor”, informou em nota a gerente de contas nacionais do IBGE, Claudia Dionísio.
As indústrias de transformação (-0,5%) e da construção (-2,0%) também afetaram os serviços, que variaram 0,2%. Dois grupos de atividades de peso no setor ficaram negativos: comércio (-0,1%) e transportes e armazenagem (-0,6%).
O fantasma da recessão já ronda o Brasil, uma vez que o resultado do último trimestre de 2018 – que fechou com um crescimento de 0,1% em comparação com o trimestre anterior – pode vir a ser revisto para baixo. Somado a isto está a dificuldade do Governo de convencer o Congresso em apostar em sua principal bandeira, a reforma da Previdência, que promete animar a economia no longo prazo. No curto prazo, no entanto, medidas como o contingenciamento de recursos federais para implementar a teto dos gastos não tem empolgado.
Alguns sinais preocupam economistas. Os investimentos das empresas, que incluem compras de maquinários e projetos de expansão, tiveram uma redução de 1,7% em relação ao quarto trimestre de 2018. Este é o segundo trimestre que as empresas apresentam retração nos investimentos. "Isso indica que os juros baixos não estão encontrando aderência na realidade e o otimismo empresarial com o Governo não se traduz em investimentos", explica André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.
João Luiz Mascolo, professor de economia do Insper, também defende que o investimento físico das empresas é a variável mais crítica. “Ele é medíocre e vem caindo nos últimos anos na proporção do PIB, porque falta confiança no futuro”. Mascolo explica que os empresários não investem em maquinário e contratações quando ainda estão inseguros. “Quando se compra equipamento não tem como se arrepender, como nos investimentos em bolsa de valores. O empresário acaba com capacidade ociosa ou tendo que se desfazer de equipamentos na bacia das almas.”
O consumo das famílias teve uma leve melhora de 0,3% em relação ao trimestre anterior, o que o IBGE atribui ao "bom comportamento do crédito para pessoa física e da massa salarial", apesar do desemprego, que atinge 13 milhões de brasileiros. "Este PIB mostra que estamos no fio da navalha, o empresário não investe e o consumidor não toma crédito para comprar porque não têm perspectiva no futuro", alerta Mascolo.
A reforma da Previdência ainda é a maior aposta dos economistas para tirar o país da inércia. “Do ponto de vista de resultado fiscal, a reforma vai demorar um pouco para ter resultado. E no curto prazo, não faz diferença no déficit público. O positivo é a sinalização, o que pode ajudar na aprovação de outras reformas, como a tributária”, diz Mascolo.

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