23/06/2019

O sexismo afeta a sua vida?

"Em países como o nosso o homem ainda é criado para não chorar, para nunca abaixar a cabeça em brigas de rua, para ser aquele que precisa trabalhar fora a fim de sustentar a família (financeiramente), para sair com todas as mulheres, mesmo contra a vontade deles próprios e delas - visto que muitas são forçadas a práticas indesejáveis. O homem não pode ser delicado e precisa sempre manter uma condição de virilidade absurda. Acho que, dessa forma, criam-se homens doentes, nojentos, sem escrúpulos, imorais e amorais. Esta é uma explicação para a sociedade machista em que vivemos. Ops, lembro que o machismo também é praticado por mulheres. Os dois são responsáveis pela criação desses maníacos".


Como o sexismo afeta a sua vida?

Existem empregos talhados para homens e empregos específicos para mulheres ou existem só empregos e ponto final?
Meninos devem se vestir de azul e brincar com carrinhos e meninas devem se vestir de rosa e brincar com bonecas?
Essas são algumas das discussões que vamos promover hoje.

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''Você enfrenta sexismo no seu dia a dia?''

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O cartunista Laerte Coutinho ou a cartunista, como prefere ser chamada, foi uma das pessoas que respondeu às perguntas sobre sexismo. Confira, a seguir:
Você vivencia sexismo no seu dia a dia? Como?
Laerte Coutinho: Algumas vezes, pelos percursos que faço. Acontece, às vezes, de receber o tratamento diferenciado que homens costumam conferir a mulheres, às vezes sob a forma de uma gentileza paternalista, às vezes de uma agressividade que se imagina à prova de reações.
Mas não é muito frequente, pra falar a verdade, enquanto experiência ''de rua''.
Os estereótipos da mulher frágil e do homem forte prejudicam tanto mulheres como homens?
Laerte: Sim, porque sabotam uma relação humana e emancipatória para ambos. E amparam condutas culturais que impõem papéis imutáveis.
Dizer a uma menina que ela deve se vestir de rosa e brincar com bonecas e que um menino precisa se vestir de azul e brincar com carrinhos é:
a) Uma coisa natural
b) reforçar estereótipos desde cedo - sem dúvida, é isso.
c) nem uma coisa nem outra
Laerte: b) Reforçar estereótipos desde cedo - sem dúvida, é isso.
O feminismo é um contraponto ao machismo, é uma forma de combatê-lo ou nem uma coisa nem outra?
Laerte: Feminismo é o nome que damos a um conjunto de movimentos sociais de natureza transgressora e transformadora. Machismo diz respeito às condutas conservadoras de discriminação, que oprimem tanto a mulher quanto qualquer comportamento fora do padrão designado pela heteronormatividade para pessoas do sexo masculino. São coisas totalmente diferentes.
Homens também deveriam ser feministas? Sim? Não? Por quê?
Laerte: Homens podem, sim, ser feministas. Mas devem, sobretudo, procurar ter a mesma atitude em relação à masculinidade - isto é: questionar os papéis de gênero tradicionais, ousar transgredir essas regras, compreender o ser humano que podem vir a ser, livres dessa opressão cultural.

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Juliana de Faria, do projeto Think Olga, grupo de discussão sobre feminismo na internet, afirma que já recebeu xingamentos e até ameaças de estupro.
"Chega a ser um ciclo irônico: uma mulher se posiciona contra o sexismo e, por causa disso, ela sobre ainda mais sexismo."
Você vivencia sexismo no seu dia a dia? Como?
Juliana de Faria: Sim. Acredito que todas as mulheres sofrem sexismos rotineiros. A questão é: diante da normatização do machismo, conseguimos identificá-los?
A jornalista Soraya Chemaly fez uma lista de 10 sexismos do nosso dia a dia. Eles vão desde o uso do gênero masculino na nossa linguagem ("OS seres humanos", "OS homens", "TODOS vocês", mesmo que o público seja formado por 99,9% de mulheres) até o velho sexismo na mídia, que objetifica mulheres, sensualiza pré-adolescentes e ignora fontes femininas para suas matérias ( pesquisas mostram que elas são apenas 25% das entrevistadas).
Além disso, posso citar os sexismos que sofro pessoalmente. Vivenciar assédio sexual é um deles -e assim precisar me preocupar com a roupa que vou usar para poder caminhar pelas ruas do meu bairro, da minha cidade, do meu país. Preocupação que jamais deve ter passado pela cabeça do meu marido, meu irmão ou meu pai.
Além disso, mantenho um projeto feminista, o Think Olga. Conquistar espaço de fala feminina na internet, principalmente quando o tema abordado é o feminismo, exige muita coragem. Frequentemente recebo xingamentos, provocações e até ameaças de estupro por parte de pessoas que acreditam que não tenho o direito de expressar opiniões sobre os problemas de nossa sociedade diante da questão de gêneros. Chega a ser um ciclo irônico: uma mulher se posiciona contra o sexismo e, por causa disso, ela sobre ainda mais sexismo.
Pela segunda vez consecutiva, o Brasil terá uma mulher na presidência. Seria um sinal de que as mulheres conquistaram um espaço maior na sociedade brasileira ou não chega a dizer tanto assim?
Juliana de Faria: Celebro a conquista de uma mulher na Presidência do Brasil. Infelizmente, isso não significa que as mulheres brasileiras estejam conquistam um espaço maior na sociedade.
Hoje mesmo, o ranking Abismo de Gênero, do Fórum Econômico Mundial, registrou uma queda de 9 posições do Brasil. Também vimos que a participação das mulheres encolheu nessas eleições.
Mas mais do que isso: o debate sobre o aborto livre, a principal luta da pauta feminista, ainda é veementemente ignorado pelas lideranças políticas.

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Juliana de Faria, do Think Olga, continuou a conversa:
Dizer a uma menina que ela deve se vestir de rosa e brincar com bonecas e que um menino precisa se vestir de azul e brincar com carrinhos é:
a) Uma coisa natural
b) reforçar estereótipos desde cedo
c) nem uma coisa nem outra
Juliana de Faria: Reforçar estereótipos.
Precisamos entender de uma vez por todas: brinquedos não têm gêneros. São as crianças que devem decidir com o que querem brincar. O brincar -e a imaginação que a ação demanda- é super importante para o desenvolvimento de uma criança. E isso não pode ser limitado por uma recriminação, preconceito ou padrão do adulto.
Já há instituições educacionais infantis que entendem quão problemática essa limitação de gêneros pode ser. Uma escola em Nebraska, por exemplo, quer abolir os termos "menina" e "menino". Incentiva que os alunos se identifiquem por meio de outros nomes. Além disso, os professores são instruídos a perguntarem aos alunos por qual gênero eles querem ser chamados.
Por que o feminismo incomoda tanta gente –não só homens como também mulheres?
Juliana de Faria: Lutas de minorias, em geral, incomodam. É tentar mudar uma cultura, uma mentalidade, apontar privilégios e lutar para que eles sejam compartilhados.

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Confira a terceira parte da entrevista com Juliana de Faria, do projeto Think Olga.
O que você responde a quem afirma que o feminismo é um contraponto ao machismo?
Juliana de Faria: Machismo perpetua os costumes da tentativa de controle masculina em relação à feminina. Feminismo defende direitos iguais entre os sexos -que mulheres têm os mesmos direitos políticos, econômicos, sociais e sexuais que homens. Machismo é sobre desigualdade. Feminismo, sobre igualdade.
Homens também deveriam ser feministas?
Juliana de Faria: Precisamos, homens e mulheres, chegar num ponto em comum: o feminismo é um movimento que luta pela equidade entre os gêneros, mas cujo o foco é o gênero feminino, por se tratar daquele que é injustiçado. Ou seja: são as questões femininas que precisam ganhar espaço e destaque. As mulheres precisam ganhar espaço de fala, de decisões -e, para atingir isso, apenas com o protagonismo da luta.
Concordando com isso e colocando isso em prática, para mim, não importa se um homem se diz feminista, pró-feminista ou machista em desconstrução. Na verdade, acho que gastamos muita energia tentando decidir como chamar esses homens que queiram participar do movimento.
Já vi feministas brigando por causa desse assunto. Deveríamos ao menos fechar com aquilo que importa: homens podem e devem fazer sua parte, mas a liderança é feminina. Dito isso, chamem-se do que quiserem. Só não vale fazer mansplaining [palavra formada a partir de man e explain usada para se referir a uma explicação em geral condescendente dada por um homem a uma mulher].

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Conversamos com Francisco Costa, que se considera um homem feminista. Veja como foi o papo:
Feminismo é coisa de mulher?
Francisco Costa: Pra mim feminismo é sanidade mental. Logo é pra todos. O feminismo é nada mais que direitos iguais. É libertador para o homem. Se libertar do patriarcado, do machismo e de muitas cobranças.
Em seu cotidiano, "te liberta" em que sentido?
Francisco: Na forma de me comportar, de me vestir, meus hábitos, minha forma de abordar as mulheres de me comportar frente às mulheres no cotidiano e sexualmente falando. Me ajudou a me aceitar mais e a ver menos problemas em algumas coisas e mais problemas em outras.
Como você tenta espalhar essa mensagem entre seus amigos homens? Lembra de alguma situação em que tenha sido difícil?
Francisco: O que mais se ouve é que a mina tal é piranha, que dá assim, dá assado. Eu respondo: "Se o corpo é da mulher, ela faz o que ela quer". Eu tento sempre utilizar as mídias que eu tenho para divulgar coisas que eu acredito. Então uso o Facebook para propagar frases como "A nossa luta é todo dia contra o racismo, machismo e homofobia". Eu entrei nos discursos de "minorias" via feminismo, mas hoje em dia estão todos muito coesos e muito próximos, logo é muito bacana.

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O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA
"O objetivo não é mais se tornar tão semelhante aos homens quanto possível, mas transformar radicalmente as relações de gênero, projeto político que, por sua vez, requer a superação de todas as formas de desigualdade - Verena Stolcke", diz a descrição da página " O machismo nosso de cada dia", fundada em abril de 2012, hoje com 140.000 likes.

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MOÇA, VOCÊ É MACHISTA

Criada em 2012, a fanpage " Moça, você é machista" tem mais de 400.000 seguidores e mostra situações cotidianas - vividas por homens e mulheres - e que mostram o machismo enraizado na sociedade brasileira.

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FEMINISMO POÉTICO

A página "Feminismo poético", criada em dezembro de 2012 no Facebook, publica poemas com teor feminista. Como este:
Soul Frida
com as cores vivas
da massa popular
pintei a vida
sem nunca me moldar
desacatei, desobedeci
questionei, sofri
não me calei, vivi

grazi

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MOÇA, VOCÊ É MACHISTA

Pelo Facebook, a página estimula mulheres a se unirem contra todas as formas de machismo.

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FEMINISTA REVOLUCIONÁRIA
Este é um dos posts da página " Feminista revolucionária". Como nas demais, a ideia ajudar a mensagem a se espalhar das redes sociais para as ruas:

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ADESTRA O GAROTÃO

O papo feminista não precisa ser "pesado ou chato", dizem as ativistas. A página Adestra o Garotão é um bom exemplo.

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Estamos conversando com a empresária Debora Xavier, idealizadora do site Jogo de Damas (sobre economia e negócios) e embaixadora brasileira do Dia Global do Empreendedorismo Feminino - uma iniciativa conjunta da Fundação das Nações Unidas, da Semana Global do Empreendedorismo e do Departamento de Estado Americano.
Para ela, a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil é um avanço, mas não significa, sozinha, uma grande conquista das mulheres.
"É um avanço simbólico, mas a reeleição da Dilma não é um fim em si mesma no que tange às conquistas femininas. É apenas um indicador de que estamos no caminho certo, de que está havendo alguma mudança", diz ela.
Deb diz, no entanto, que a presidente "falhou bastante" em encampar políticas públicas que diminuam a desigualdade de gênero no Brasil.
"Como mulher, ela poderia (e deveria) ter trazido o assunto à tona de maneira mais estruturada, entendendo a atuação feminina como estratégica para o desenvolvimento do país", afirmou.
"O tema precisa ser discutido também nos outros Ministérios e Secretarias, como Planejamento, Previdência Social, Assuntos Estratégicos, Micro e Pequena Empresa, Cidades, Tecnologia e Inovação. Não é um tema à parte. No Fórum Econômico de Davos se discutiu como a economia do próximo século vai ser redesenhada pelos 3W: weather, web e women (clima, internet e mulher). É preciso estar atento a isso e encarar a mulher para além da caridade ou questão do bem-estar social."

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Como parte do diálogo global sobre sexismo e a condição feminina nos dias de hoje, a BBC colheu relatos em diferentes partes do mundo.
Como este, de Maryam, do Afeganistão, que afirma que "De onde venho, não se espera que as mulheres lutem contra o assédio. As pessoas não lhes dão apoio em casos assim. Elas pedem que elas se acalmem".

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CANTADA DE RUA

Uma das experiências mais interessantes do ativismo feminista na internet é a página " Cantada de rua - conte o seu caso".
A história abaixo foi contada por uma das leitoras, que narra
"Estou um pouco incomodada com algo que aconteceu e gostaria de dividir com vocês, porque acho que é importante para mim e para qualquer pessoa que passou por algo parecido. Trabalho como consultora e vira e mexe tenho que ficar até tarde no escritório. Em um projeto específico, tenho um chefe que é apenas um pouco mais velho que eu. Ele se divide entre três escritórios, e quase nunca para no escritório onde trabalho. Bem, um dia calhou de ficarmos, eu e ele, sozinhos, no escritório, a noite. Era tarde e eu continuei trabalhando porque tinha um prazo para respeitar (Inclusive, vivo trabalhando até tarde). Só que meu chefe não sabe, até porque, para ele não faz diferença. Bem, o que vem ao caso foi o dia que ficamos eu e ele no escritório e ele veio até a minha mesa. Eu estava sentada em uma mesa do outro lado da sala, trabalhando. Ele veio até mim, e ficou em pé, do meu lado. eu achava que ele estava se despedindo e levantei para dar tchau, mas ao invés de se despedir, ele começou a fazer uma massagem em mim. Dispensei a massagem uma vez. Agradeci e disse que não queria. mas não adiantou. Ele disse que tinha que terminar, que não podia largar no meio. E.. Eu não sei porque, mas eu perdi a reação. Eu fiquei quieta, apenas esperando ele terminar. Foi constrangedor, inapropriado e chato. Estou puta comigo mesma por não ter reagido. Eu sei que é coisa pequena, e que muita gente que fez um depoimento aqui passou por muita coisa pior, mas eu queria dizer que: é foda. A gente nunca sabe como vai reagir até algo estranho acontecer com a gente. Eu não tenho medo deste meu chefe, mas eu fico puta com a situação. Não posso falar para o nosso chefe porque é algo muito pequeno, entende? É "só uma massagem", ele só queria ser cordial, devo estar confundindo. Mas quem falou que ele podia fazer essa massagem? Que direito ele tem de pegar em mim? Bem, to aqui para falar que eu não tenho medo dele, estou apenas muito puta, e um pouco decepcionada comigo mesma, que deveria ter reagido melhor. Mas, não sei. Fiquei sem reação. No entanto, queria dizer que se eu tiver que ficar até tarde no trabalho novamente eu vou ficar sim, porque eu posso. E que se esse cara vier para cima de mim de novo, ele não sabe o escândalo que eu vou fazer. Estou contando está história porque quero falar para todas as mulheres que passaram por algo parecido no trabalho que isso é uma forma de assédio sexual, e que isso ainda é muito comum. Eu entendo o constrangimento de denunciar esse tipo de coisa, sei, por exemplo, que se eu fizer isto, não vou chegar a lugar algum. Mas precisava desabafar para abrir o meu olho e olho de todo mundo , porque estamos em 2014 e este tipo de coisa ainda acontece. Massagem no escritório não é ok, não é normal, não é legal."

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Conversamos ainda com Nana Queiroz, a ativista e criadora do projeto Não Mereço Ser Estuprada, que alertava para a violência sexual contra a mulher. Confira a seguir, a sua entrevista:
Você enfrenta sexismo no seu dia a dia, como é que ele se manifesta?
Nana Queiroz: Toda mulher enfrenta sexismo no Brasil, estou bem tranquila em dizer.
Ele se expressa de dezenas de formas, mas a mais ilustrativa é maneira como os homens nos tratam nas ruas e como vêem nossos corpos como coisas às quais eles têm direito.
Por exemplo, eu vejo um homem sexy na rua, eu não me sinto no direito de expressar meus desejos por ele ou tocá-lo. Não significa que eu não sinta desejos como os homens, mas o corpo do homem é interdito pra mim a não ser que haja uma clara permissão para cruzar esta linha.
Já eles se sentem na liberdade de me dizer, em detalhes, o que fariam com meu corpo em um quarto.
Alguns, veja que absurdo, até tocam meu corpo sem permissão, se aproximam para encoxar no transporte público.
O homem brasileiro ainda entende que o corpo da mulher é permitido a não ser que se diga o contrário.
Enquanto nós entendemos que o corpo do homem é interdito até que se diga o contrário.
E o contrário, em nossa sociedade, é esconder. Se você esconde seu corpo bem escondidinho, só aí você está dizendo que ele não é um objeto de uso público. Veja que inversão de valores: num país em que as pessoas enchem a boca para falar de direito à propriedade privada, tiram esse direito da mulher sobre o próprio corpo
Você foi vítima de ameaças e até de violência sexual quando lançou a campanha 'Eu Não Mereço Ser Estuprada'. As reações extremas surpreenderam ou você já percebia esse tipo de sentimento na sociedade brasileira?
Nana Queiroz: Eu sempre percebi que nossa sociedade odeia as mulheres que demonstram poder sobre o próprio corpo porque, como disse, ela desafia o status quo que acredita que a o corpo da mulher é propriedade coletiva até que se prove o contrário. Mas eu nunca imaginei que a coisa tinha essa escala
O ódio voltado contra mim, meu marido e até a minha mãe tinha proporções assustadoras, violentas e de aspecto religioso, o que me assustava mais, uma vez que o cristianismo é, na origem, uma religião de fé e tolerância e virou uma religião de perseguição às diferenças.

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Confira, a seguir, a segunda parte da entrevista com a ativista social Nana Queiroz.
Por que, a essa altura, o feminismo ainda gera raiva e medo?
Nana Queiroz: Por várias razões. A primeira delas, creio eu, é a competição. Um cara só precisa tirar 6 na escola para se formar e ganhar o dobro do salário de uma mulher. Uma mulher com um boletim de puro 10 ainda assim ganha menos. Quando a equidade for estabelecida, os homens perderão postos a não ser que estejam dispostos a se esforçar mais. Claro, isso dá medo.
Qualquer ameaça a privilégios gera reações fortes. Veja o ódio ao Bolsa Família: as pessoas não querem que seus empregados se sintam no direito de pedir aumento, de se demitir.
Com as mulheres é o mesmo. A mulher tem uma hoje, ainda, uma posição de cidadão de segunda classe. Imagina o que alguns homens fariam se suas mulheres, de repente, se negassem a assumir todas as tarefas da casa? Muitos deles nem saberiam onde estão as panelas! Iam passar um pouco de fome antes de aprender a se virar
Nana, há quem defenda que homens também deveriam ser feministas, você pensa assim?
Nana Queiroz: Essa é uma questão delicada. Quem é contra afirma que um homem sempre se beneficia dos privilégios do machismo, logo, na estrutura, lá no fundo, nunca pode ser um feminista real.
Isso tem muito de verdade, mas eu quero crer que podemos trabalhar para converter os homens ao feminismo também
Como feministas, eles teriam que aceitar que são meros coadjuvantes na luta, como os brancos apoiadores da causa negra, por exemplo. Eles nunca saberão, como nós, o tamanho da opressão.
Mas eu acredito na capacidade de empatia do ser humano
Por isso acredito que, com algum trabalho e a educação adequada, podemos construir homens feministas de verdade. Os que sabem ouvir as mulheres e dar crédito a suas exigências. Os que sabem que essa briga nao é para eles assumirem os holofotes, mas para apoiarem.
Acho que só vamos progredir de verdade quando os homens aceitarem o feminismo com amor e não com imposição.

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MOÇA, SEU NAMORADO É MACHISTA
Uma das páginas feministas mais populares no país se chama " Moça, seu namorado é machista". Ela expõe, por meio de memes, exemplos do machismo cotidiano no país:

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AME SEU CORPO

Em "Ame seu corpo", no Facebook, mulheres são estimuladas a "não acreditar no que dizem as revistas: seu corpo é lindo".

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INDIRETAS FEMINISTAS
O uso de memes é a principal estratégia das páginas feministas nas redes sociais. Em "Indiretas feministas" eles são frequentes:

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FEMINISTA DA DEPRESSÃO

Cabelo é um dos temas mais discutidos nas páginas. Veja a mensagem de Feminista da Depressão:

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Conversamos com o coletivo Nós, Mulheres da Periferia, formado por jornalistas e ativistas da periferia de São Paulo. Confira, a seguir.
Você vivencia sexismo no seu dia a dia? Como?
Nós, Mulheres da Periferia: Sim, o sexismo faz parte do nosso cotidiano, em pequenas coisas, desde quando em nossa casa os homens não ajudam com as tarefas do lar, até quando um homem olha para gente com olhar malicioso na rua. Esses comportamentos fazem a mulher adquirir, naturalmente, o papel de objeto e também de que apenas elas têm obrigação dos cuidados domésticos.
Para mulheres de comunidades pobres e de bairros da periferia o sexismo oferece desafios ainda maiores do que os enfrentados, por mulheres de classes mais altas?
Nós, Mulheres da Periferia: Acredito que os desafios em relação ao sexismo, o controle do corpo, o julgamento machista, são os mesmos, entretanto, devido às condições de classe, há casos em que as mulheres pobres se submetem mais financeiramente a seus companheiros e isso é difícil de contornar, principalmente se houver violência doméstica. Além disso, trabalhando longe de casa, enfrentando horas no transporte público, sobra pouco tempo para a mulher, que, em casa, ainda tem a dupla jornada a cumprir, as atividades domésticas, a educação dos filhos, nas quais os homens, infelizmente, não contribuem de maneira igualitária.
O feminismo é um contraponto ao machismo, é uma forma de combatê-lo ou nem uma coisa nem outra?
Nós, Mulheres da Periferia: É uma forma de combatê-lo.
Homens também deveriam ser feministas? Sim? Não? Por quê?
Nós, Mulheres da Periferia: Com certeza, homens que admitem que vivemos em uma sociedade machista e patriarcal e colaboram na luta contra essa situação são feministas.
O Nós, mulheres da periferia é formado por: Aline Kátia Melo, 31, é da Jova Rural, zona norte; Bianca Pedrina, 30, é de Carapicuíba (Grande SP); Cíntia Gomes, 30, é do Jardim Ângela, zona sul; Jéssica Moreira, 23, é de Perus, zona noroeste; Lívia Lima, 27, é de Artur Alvim, zona leste; Mayara Penina, 23, é de Paraisópolis, zona sul; Priscila Gomes, 30, é da Vila Zilda, zona norte; Regiany Silva, 25, da Cidade Tiradentes; e Semayat Oliveira, 25, é da Cidade Ademar, zona sul.

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Conversamos com a poeta, atriz e professora Queila Rodrigues, participante regular de saraus na periferia de São Paulo e moradora do bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. Ela contou que, para mulheres de comunidades pobres, em sua maioria negras, o sexismo se faz ainda mais presente.
As mulheres de comunidades pobres e de bairros da periferia sentem o sexismo de forma ainda mais dura do que as mulheres de classe mais altas?
Queila Rodrigues: Com toda certeza! E aí a gente abre uma outra chave, porque existe também a questão racial, já que a maioria das mulheres pobres/periféricas também são negras e isso não é por acaso. Somos herdeiros de um processo histórico de escravidão que na sociedade atual ainda reflete nas relações sociais entre brancos e negros, não é à toa que a população periférica é de maioria negra, que as empregadas domésticas são em sua maioria negras, que a mulher negra é símbolo do fetiche dos homens brancos. Isso vem de longe, vem da Casa Grande, quando os negros eram escravizados por serem considerados inferiores por sua cor e cultura e, nesse contexto, além disso, as mulheres negras também serviam para atender aos desejos sexuais dos homens brancos.
O ventre ficou "livre", mas o cordão umbilical carrega as histórias de racismo e violência contra a mulher negra desde esses tempos e nós, mulheres negras e periféricas, sentimos na pele essa herança. É claro que as mulheres brancas da periferia também são alvo do sexismo, assim como as mulheres em geral, mas há que se fazer esse recorte, pois enquanto as sufragistas brancas lutavam pelo direito ao voto, ou a inserção no mercado de trabalho (e isso foi muito importante!), as mulheres negras cuidavam das suas casas, dos seu filhos e isso não pode ser ignorado, pois culminou na diferença de oportunidades entre mulheres brancas e negras que ainda nos deparamos na sociedade atual.
E quem duvidar do que eu estou falando, entre agora em um banco e repare nos cargos ocupados por mulheres, aonde estão as brancas e aonde estão as negras? Entre em um universidade pública e faça o mesmo.

conteúdo
Bruno Garcez
BBC

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