30/08/2019

'Aflição com o futuro' e ‘mundo mais confuso’: o desempenho da economia no primeiro semestre do governo Bolsonaro



A economia brasileira está pior do que o mercado financeiro e próprio governo previam no início do ano. O que eles esperavam que acontecesse no primeiro semestre do governo do presidente Jair Bolsonaro e que não aconteceu?

A resposta tem a ver com o que se passa dentro do Brasil e também com a economia mundial, que tem dado sinais de desaceleração.
O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil subiu 0,4% no segundo trimestre de 2019, em comparação com o trimestre anterior, conforme divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (28). Na comparação com igual período de 2018, a alta foi de 1%.
Embora haja uma perspectiva de melhora no segundo semestre, o Brasil deve crescer menos do que o esperado no acumulado do primeiro ano do governo Bolsonaro.
A expectativa do governo brasileiro é de que o crescimento do PIB em 2019 seja de cerca de 0,8%. Esse é o mesmo patamar hoje esperado pelo mercado financeiro, que começou o ano com uma previsão acima dos 2%, segundo o Relatório Focus do Banco Central.
Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia Group, diz que o maior risco político do Brasil hoje é exatamente a economia não recuperar patamares mais altos de crescimento até meados do ano que vem.
"Nos últimos cinco anos no Brasil, a política tem pautado a economia. Grandes eventos políticos pautam as expectativas: 'Dilma vai ganhar a reeleição ou não?', 'Vai ter impeachment ou não?', 'O que Temer pode fazer?' São exemplos de temas que pautaram a economia. Hoje a economia é que vai pautar a política."
No cenário de uma economia ainda patinando no ano que vem, segundo Garman, pode haver uma pressão por medidas que vão no sentido contrário do ajuste fiscal prometido pelo governo.
"Existe uma expectativa de que parte dessas reformas que estão sendo feitas se traduzam em recuperação econômica. Se a economia permanecer estagnada ao longo do ano que vem, a pressão no Congresso para medidas de afrouxamento fiscal vai aumentar."
A BBC News Brasil entrevistou economistas para apontar os motivos da fraca atividade econômica no Brasil durante primeiro semestre e indicar as perspectivas para o resto do ano.

O que o mundo tem a ver com isso

"Se o mundo vira, todo mundo é chacoalhado. Não dá para fugir desse ciclo mundial", resume a economista Silvia Matos, que coordena o Boletim Macro, do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia).
Os desdobramentos da guerra comercial entre China e Estados Unidos são hoje o principal foco de atenção dos economistas em todo o mundo, exatamente pelo potencial de afetar de forma negativa o comércio global e, consequentemente, o crescimento de cada país.
A preocupação aumentou com a divulgação, em agosto, de sinais desaceleração na economia mundial: a China viu a produção industrial cair, em julho, para o ritmo mais lento em 17 anos e o PIB da Alemanha teve retração no segundo trimestre, devido à queda nas exportações.
A guerra comercial entre EUA e China, as duas maiores economias do mundo, é a ameaça número um para a economia mundial, segundo relatório da Economist Intelligence Unit (área de inteligência da revista britânica The Economist) que aponta os dez principais riscos para a atividade mundial.
"O comércio global pode diminuir, com efeitos para inflação, confiança empresarial, confiança do consumidor e, em última análise, crescimento econômico", diz o relatório.
Silvia Matos explica que "um mundo mais confuso" atrapalha as perspectivas de crescimento do Brasil.
"Tem que fazer um esforço muito maior para ter aqui uma agenda clara, estabilidade de regras, para trazer o dinheiro estrangeiro", diz. "Os investidores olham também a situação do mundo, de muita incerteza, e fica mais difícil atraí-los num cenário externo mais conturbado. Sem saber muito o que vai acontecer, você arrisca menos."
O medo dos efeitos da guerra comercial traz uma dificuldade adicional para os países em que a economia já estava patinando, como é o caso do Brasil.
E a economia brasileira também sofre os efeitos da crise econômica na Argentina, importante parceiro comercial do Brasil. O resultado das eleições argentinas, em outubro, também afetará a relação com o Brasil e as trocas comerciais.
"Somos ainda muito dependentes da Argentina (nas exportações). Então ela contribuiu para maior fraqueza da economia", diz Silvia Matos.
A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute, em Washington, lembra que havia uma aposta grande de que o Brasil conseguiria atrair forte investimento estrangeiro quando houvesse uma sinalização de que a agenda de reformas iria caminhar.
"Mas não vimos isso acontecer. O investimento não vai vir para o Brasil porque o mundo está complicado. Em países como o Brasil, que estão em situação complicada a respeito da recuperação econômica e em situação política não muito clara, isso tem espantado o investidor estrangeiro. Ele até enxerga oportunidade no Brasil, mas o tempo todo questiona se é o momento de botar dinheiro no país."
Sobre a crise diplomática gerada após a repercussão internacional das queimadas na Amazônia, Monica de Bolle diz que, embora ainda não tenha tido um impacto direto na economia, "o risco de que venha a ter é grande".
"Se essas tensões diplomáticas escalarem, e escalarem a um ponto que países passem de fato a boicotar, explicitamente ou implicitamente, produtos brasileiros, aí vamos sentir o baque. A economia está frágil, não está em situação em que consegue lidar com esse tipo de choque bem."
O desempenho previsto para a economia brasileira em 2019 está bem abaixo dos mais de 4% de crescimento previstos para os países emergentes pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) – puxado principalmente pelos países asiáticos. Ao mesmo tempo, está em linha com o 0,6% de crescimento que se espera para a América Latina neste ano.
Em um relatório sobre o primeiro semestre do ano, o FMI destacou que houve uma queda "notável" na atividade econômica de países da América Latina. Entre os principais motivos, está o Brasil, onde, segundo a avaliação da instituição, a confiança se enfraqueceu devido à incerteza sobre a aprovação de reformas.

Primeiro semestre do novo governo

Embora o cenário externo assuste, os economistas concordam que as principais explicações para o desempenho da economia brasileira estão dentro do país.
Os brasileiros estão "aflitos com o futuro", na avaliação de Monica de Bolle. Ela diz que o consumo está aquém do desejado, o que ajuda a explicar o nível de atividade no primeiro semestre deste ano.
"Havia uma ideia de que bastava ter um novo governo e um novo governo comprometido com reformas que isso seria suficiente para trazer de volta confiança e investimento. Essa era a grande aposta no mercado. No fim, o que estamos vendo é que nada disso volta se você não tiver evidências claras de que os consumidores têm capacidade de consumir", diz Monica de Bolle.
Para a economista, é o comportamento do consumidor que determina, em grande parte, se as empresas vão ter mais ou menos apetite para investir e, consequentemente, gerar mais ou menos empregos.
"Do lado do consumidor, a situação ainda está muito complicada. O desemprego está alto, o subemprego também está alto. Então, as vagas que foram criadas desde o início do ano são empregos mais precários em termos de segurança para o trabalhador e nada disso conspira a favor de um consumidor com mais esperanças para o futuro. Pelo contrário. As pessoas no Brasil estão, de modo geral, muito aflitas com o futuro. O consumo está reagindo muito pouco, e isso desincentiva investimento."
Depois de cinco meses de quedas consecutivas, o Índice de Confiança do Consumidor medido pela Fundação Getulio Vargas subiu em agosto. O relatório aponta, contudo, que "apesar dos consumidores apostarem em uma melhora da situação financeira das famílias nos próximos meses, o ímpeto para consumir continua diminuindo, mostrando que consumidores de todas as classes de renda estão cautelosos".

`Zero a zero`

Wilber Colmerauer, sócio-fundador da consultoria financeira EM Funding, em Londres, usa a expressão "zero a zero" para descrever a situação da economia brasileira e o ânimo dos investidores.
"Se você olhar os agentes econômicos, está tudo muito ainda no zero a zero. Não tem um entusiasmo", afirmou.
Silvia Matos diz que o cenário é de "semi-estagnação", mas que há alguns aspectos positivos na economia brasileira.
"Tem algumas coisas que fazem a roda girar: emprego informal, algum consumo. Mas vai dizer que a economia está maravilhosa? Não. O investimento será o patinho feio do ano, vai crescer muito pouco. E é essencial que o investimento volte de forma consistente."
Já Colmerauer diz que o Brasil passa "a mais lenta recuperação de uma crise econômica da história do Brasil", mas também destaca que há sinais positivos, como "alguma melhora de perspectiva em função da aprovação da reforma da Previdência" na Câmara e "inflação sob controle".
"Não é suficiente pra resolver tudo, mas tem pequena dose de otimismo", diz.
A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,19% em julho, segundo o IBGE. Apesar de uma pequena aceleração em relação ao mês anterior, foi a menor taxa para o mês de julho desde 2014.

Ajuste fiscal

Colmerauer lembra que a equipe econômica do governo mudou o discurso em relação ao tempo para recuperação da economia.
"Primeiro, eles deram sensação de que as coisas poderiam acontecer no curto prazo, mas agora estão mudando o discurso", disse.
Para Monica de Bolle, "a chance de o Brasil sair desse atoleiro no curto prazo, ou mesmo em um médio prazo, de 2 anos, é muito pequena".
Ela defende que a atual equipe econômica tem uma "preocupação excessiva com o médio prazo em detrimento do curto".
"Estamos vendo acontecer no governo Bolsonaro uma coisa muito parecida com o que a gente via acontecer no governo (Michel) Temer. Existe uma preocupação correta em fazer reformas que vão ter efeitos fiscais e outros efeitos na competitividade, na produtividade, no médio prazo. São reformas que vão começar a ter impacto na economia daqui três, quatro, cinco anos. Mas a gente não está vendo nada em termos de estratégia para o curto prazo."
Questionada sobre a liberação de parte dos recursos dos trabalhadores do FGTS, anunciada pelo governo, a economista diz que a medida "tem efeito muito temporário e não serve para reduzir desemprego", portanto não é suficiente, segundo ela, para "girar o motor da economia".
"Poderíamos, quem sabe, usar um pedaço das nossas reservas excedentes para criar um espaço fiscal agora que pudesse ser utilizado para medidas de estímulo que de fato tenham repercussões mais fortes sobre o mercado de trabalho, sobre o desemprego e que, de fato, ajudem as pessoas a olhar para o momento atual delas e para o futuro com mais otimismo do que olham hoje. Esse tipo de discussão, não estamos vendo acontecer dentro do governo", diz Monica, que também fez críticas à política econômica de outros governos, especialmente o de Dilma Rousseff.
A equipe do ministro Paulo Guedes tem dito que medidas tomadas no passado levaram o Brasil a uma situação fiscal crítica e que hoje não há espaço para investimentos públicos. O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou que, mesmo com "tudo dando certo" no ajuste fiscal, o Brasil só deve voltar a ter superávit nas contas públicas em 2023.
A professora de economia da Universidade de Brasília Maria de Lourdes Mollo, que defende uma participação maior do Estado na economia, critica a falta de estímulos ao consumo.
"Há quanto tempo a gente está escutando isso de o governo pedir paciência (para a economia melhorar)? Se você olhar os jornais antigos, você vai ver 'ah, a confiança vai aumentar porque o governo está fazendo o dever de casa'. É uma 'fada da confiança' que não está funcionando."

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