22/08/2019

ONGs rebatem fala de Bolsonaro sobre queimadas



ONGs ambientalistas reagiram à fala do presidente Jair Bolsonaro desta quarta-feira (22/08), que alegou que entidades do tipo poderiam estar por trás das queimadas na região da Amazônia.

Bolsonaro sugeriu que os incêndios poderiam ser resultado de ações criminosas que teriam o objetivo de prejudicar o governo. "Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses 'ongueiros' para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos. Vamos fazer o possível e o impossível para conter esse incêndio criminoso."
"O crime existe, e nós temos que fazer o possível para que não aumente. Mas nós tiramos dinheiro de ONGs. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs,. Acabamos também com o repasse de dinheiro público, de forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro", prosseguiu.
Ao ser questionado se haveria evidências para corroborar essa declaração, o presidente disse: "Vocês têm que entender uma coisa, que isso não está escrito. Não têm um plano para isso aí. Isso é conversa, pessoal faz, toma decisão e ponto final."
O presidente justificou as suspeitas afirmando que "o fogo foi tocado, pareceu, em lugares estratégicos". "Pelo que tudo indica, foi para lá o pessoal para filmar e tocaram fogo. Esse que é o meu sentimento", disse.
ONGS e ambientalistas rechaçaram as declarações de Bolsonaro, qualificando-as de "irresponsáveis", "absurdas" e até "paranoicas", e acusaram o presidente de tentar criminalizar as entidades sem apresentar provas.
A WWF Brasil lamentou a atitude do presidente. "A prioridade do poder público é zelar pelo patrimônio e não criar divergências estéreis e sem base na realidade", afirmou a entidade, em nota.
A ONG ressaltou que "historicamente, nessa região [da Amazônia], o uso do fogo está diretamente ligado ao desmatamento, pois é uma das técnicas do desmatamento".
Ao comentar a alegação de Bolsonaro de que ONGs estariam reagindo a um corte de repasses, a WWF citou uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), segundo a qual, entre 2010 e 2018, apenas 2,7% das Organizações da Sociedade Civil recebem recursos federais. Segundo os dados citados, apenas 5% desses recursos foram destinados à região Norte.
"Os recursos que o governo suprimiu foram as doações internacionais ao Fundo Amazônia e eles subsidiavam ações de combate ao desmatamento e a incêndios, entre outras coisas. Portanto, o que o alegado corte em repasse de recursos causou foi a redução na capacidade do Estado de combater o desmatamento e os incêndios", afirmou a WWF.
Paulo Addario, estrategista sênior de florestas do Greenpeace, acusou o governo de tentar criminalizar as ONGs.
"O Estado não tem capacidade de atuar em todos os lugares, e parte da sociedade civil assume a responsabilidade de fazer isso. Aí você criminalizar isso é um desejo deliberado de descrédito porque o presidente não acredita na organização social, ele acha que é uma coisa manipulada pela esquerda, pelos comunistas", disse o ambientalista, citado pelo jornal O Globo.
"No fundo, é criminalizar a cidadania. Só governos autoritários, que sonham com ditaduras, podem pensar em criminalizar os seus cidadãos", destacou, acrescentando que acreditar em conspirações de entidades internacionais contra o Brasil "é uma coisa paranoica que não é nova".
Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), qualificou de "absurdas" as declarações de Bolsonaro.  "Essa afirmativa da Presidência da República é completamente irresponsável, porque as ONGs têm como objetivo o meio ambiente como prioridade. Não faz nenhum sentido dizer que ONG está colocando fogo em floresta, pelo contrário. É um grande absurdo”, afirmou, citado pelo portal G1.
Dados do programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados na segunda-feira revelaram que as queimadas no Brasil aumentaram mais de 80% quando comparadas às ocorrências registradas entre janeiro e 18 de agosto de 2019 às do mesmo período no ano passado.
O órgão registrou 71.497 focos de queimadas até o dia 18 de agosto deste ano, contra 39.194 no ano anterior, marcando o maior número registrado desde 2013, primeiro ano de que o Inpe tem registro para o período. O recorde anterior ocorreu em 2016, quando foram registrados 66.622 focos.
Os estados onde foram registrados os maiores aumentos em relação ao ano passado foram: Mato Grosso do Sul (260%), Rondônia (198%), Pará (188%), Acre (176%) e Rio de Janeiro (173%). Os números do Mato Grosso, com 13.641 focos, correspondem a 19% do total das queimadas no Brasil neste ano e a um aumento de 88% em relação ao mesmo período de 2018.
Governo abre edital para monitoramento por satélite
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou através do Twitter que o aumento dos incêndios no país se deve às condições climáticas, sem mencionar o desmatamento.
"Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País. Os brigadistas do ICMBIO e Ibama, equipamentos e aeronaves estão integralmente à disposição dos Estados e já em uso", tuitou Salles, em mensagem compartilhada por Bolsonaro.

Após Salles e Bolsonaro questionarem os números mais recentes do desmatamento divulgados pelo Inpe, O Ibama publicou no Diário Oficial da União desta quarta-feira um edital para a contratação de uma empresa privada para monitorar a Amazônia por satélite.
Segundo o edital, a empresa deverá apresentar relatos diários de alta resolução sobre indícios de desmatamento e manter um sistema de alertas, semelhante ao sistema Deter, já utilizado pelo Inpe. O Deter detectou um aumento de 278% no desmatamento no mês de julho, em comparação ao mesmo mês do ano anterior.
O desentendimento entre o governo e o Inpe resultou na exoneração do presidente do instituto Ricardo Galvão, que Bolsonaro sugeriu que poderia estar "a serviço de alguma ONG".


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DW

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