17/09/2019

Um sátrapa



Sabe você por que milhões de africanos querem entrar na Europa como for, arriscando-se a morrerem afogados no Mediterrâneo? Porque, para sua infelicidade, ainda há na África um bom número de tiranetes como Robert Mugabe, o sátrapa que durante 37 anos foi amo e senhor do Zimbábue e que acaba de morrer no Hospital Gleneagles, em Singapura. Tinha 95 anos de idade, era muito aficionado do críquete, das lagostas e do champanhe francês, costumava gastar 250.000 dólares em cada uma de suas festas de aniversário, e calcula-se que deixa à sua viúva, Grace – apelidada Gucci por sua afeição pelas roupas e bolsas dessa célebre grife, e várias décadas mais jovem que seu marido –, uma herança de nada menos que aproximadamente um bilhão de dólares.

Sua mais extraordinária proeza não foram seus roubos, nem as dezenas de milhares de zimbabuanos que torturou, encarcerou e assassinou. Tampouco ter causado uma hiperinflação de 79,6 bilhões por cento ao ano – chegaram a ser impressos bilhetes de cem trilhões –, que fez a moeda nacional desaparecer. É, talvez, ter destruído a agricultura de um país sobre o qual, nos tempos do colonialismo britânico, dizia-se que aquela terra privilegiada poderia ser o celeiro de toda a África, e talvez do mundo inteiro. Hoje, aquela nação, a mais próspera do continente meio século atrás, morre de fome. Um terço da sua população foi obrigada a fugir para o exterior devido às perseguições e matanças de Mugabe; agora, são a miséria e a falta de trabalho que a impulsionam milhões de desventurados zimbabuanos a fugirem ao exterior para sobreviver.
A África é o berço daquele que foi talvez o melhor estadista que a humanidade conheceu no último século – refiro-me ao sul-africano Nelson Mandela, graças a quem seu país é um dos que escapam à crise que assola tantos outros –, mas, logo depois do desaparecimento do sistema colonial, assim como na América Latina, em vez de estabelecer a democracia e desenvolver seus abundantes recursos, esse continente se encheu de ditadorezinhos ambiciosos e venais, além de assassinos – as exceções cabiam em uma mão –, que continuaram empobrecendo seus países a ponto de gerarem um êxodo gigantesco que, hoje, se tornou um problema para o mundo inteiro. A tragédia que o Zimbábue viveu com a tirania de Mugabe é um bom exemplo do que ocorreu com muitos países africanos que, depois de se libertarem de um sistema colonial saqueador e racista, abismaram-se em ditaduras de ladrões sanguinários.
Como outros sátrapas na história, Robert Mugabe, filho de um carpinteiro e uma catequista cristã, recebeu uma boa educação. Obrigado a se exilar por sua militância anticolonial, estudou, primeiro, em universidades da África do Sul e logo depois em Gana, onde também lecionou. Declarava-se então discípulo do africanista Kwame Nkrumah, mas, durante os anos da ação anticolonialista contra o regime racista de Ian Smith (o Zimbábue então se chamava Rodésia), encabeçou um movimento maoísta. Passou quase dez anos na cadeia e saiu dela transformado no político inescrupuloso, intrigante e ardiloso que foi marginalizando (e às vezes liquidando) os seus antigos companheiros da luta anticolonial, como Joshua Nkomo, que terminou alçando-se contra ele. A repressão que Mugabe levou a cabo foi terrível; além dos rebelados, estendeu-se às comunidades dos shonas e ndebeles, as quais praticamente exterminou. Entre 20.000 e 30.000 membros dessas comunidades pereceram naquela espantosa sangria.
Segundo os acordos de Lancaster House, que deram a independência ao Zimbábue, o Governo de Mugabe se comprometeu a respeitar as terras de 5.000 agricultores zimbabuanos brancos que, embora fossem produto da rapina colonial, eram tecnicamente exemplares e asseguravam trabalho e grandes rendimentos ao país. Mas aqueles foram expropriados durante a pitoresca “reforma agrária” que Mugabe empreendeu no ano 2000 e que consistiu em distribuir aquelas prósperas empresas entre seus cupinchas e protegidos. Isto foi o princípio do desmoronamento da agricultura nacional que, após poucos anos, transformaria um dos países mais ricos da África em uma sociedade pobre e deprimida. O autocrata, apesar disso, não cessava em seus enlouquecidos dispêndios, nem tampouco os dissimulava. Encarregou uma firma chinesa de construir no centro de sua propriedade de 22 hectares, em Harare, um palacete versalhesco de 25 quartos que mobiliou com todo luxo e, em um de seus discursos mais difundidos, reconheceu que admirava Hitler e que não se importava em ser comparado a ele. Acreditava ter a cumplicidade assegurada de seu partido deixando que seus dirigentes roubassem, mas mesmo isso tinha um limite.
Seus problemas com os membros de seu próprio partido começaram quando se empenhou em que sua jovem esposa, Grace, o substituísse no Governo. Isto o levou a uma confrontação com seu braço direito e homem para toda obra, Emmerson Mnangagwa, o atual presidente, que conspirou com os militares, e estes obrigaram Robert Mugabe a renunciar, embora sem levá-lo a juízo e, sobretudo, deixando intacta a sua fortuna. Há, portanto, poucas esperanças de que com a morte do sátrapa as coisas mudem em seu desventurado país. Seus cúmplices, que têm as mãos tão manchadas de sangue como as tinha ele, e que ao mesmo tempo em que enriqueciam arruinavam o Zimbábue, continuam no poder, de modo que o empobrecimento do país prosseguirá, e continuará contribuindo para a migração dos milhões de africanos que devem buscar na Europa o que sua pátria é incapaz de lhes dar.
Talvez o mais absurdo desta morte tenha sido que quem o tirou do poder pela força, nada menos que o próprio Emmerson Mnangagwa, faça o anúncio de sua morte “com o maior dos pesares”. “Era um ícone da libertação”, proclamou, “um pan-africanista que dedicou sua vida à emancipação e empoderamento de seu povo. Sua contribuição à história da nossa nação e do continente nunca será esquecida”. E pouco depois anunciou que seu Governo decidiu nomear Robert Mugabe “herói nacional”.
A história da África é tão triste como foi – e continua sendo em boa parte – a da América Latina. Nunca aprendemos que a democracia não consiste apenas em que haja independência de poderes e diversidade política, e sim em ter políticos honrados, que respeitem as leis e que não se aproveitem do poder para enriquecer e liquidar o adversário. Os Mandelas que chegamos a ter – houve vários, embora nenhum tivesse a repercussão mundial do sul-africano – foram aves de passagem e não chegaram a fazer escola. O pior não é que existam esses lixos humanos como um Robert Mugabe, mas sim que haja povos que votem neles e os elejam e reelejam e, como fez Mnangagwa com aquele, os transformem em “heróis nacionais”. Com pouquíssimas exceções, nem africanos nem latino-americanos temos remédio, pelo visto.


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Mario Vargas Llosa
El País

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