04/11/2019

O que se descobriu até agora sobre o óleo no Nordeste



Desde o final de agosto, praias do Nordeste brasileiro vêm sendo atingidas por manchas de petróleo. Segundo uma ampla investigação da Polícia Federal, em parceria com a Marinha e outras instituições, o responsável é um navio de bandeira grega, que fugiu sem alertar sobre o vazamento, e o óleo é venezuelano.

O principal suspeito
O navio de bandeira grega Bouboulina é o principal suspeito de ser o responsável pelo vazamento do óleo nas praias do Nordeste, segundo afirmaram procuradores da República em representação encaminhada à Justiça Federal.
O Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, ficou ali por três dias, e continuou viagem rumo à Malásia, pelo Atlântico, vindo a aportar apenas na África do Sul, em 9 de agosto. Foi no trajeto que ocorreu o vazamento.
Segundo os investigadores, há fortes indícios de que a empresa Delta Tankers, o comandante do navio e tripulação deixaram de comunicar às autoridades competentes sobre o vazamento no Atlântico.
A Grécia é líder global em transporte de petróleo, com 24% do mercado mundial, segundo relatório da agência das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento.
O Ministério Público Federal (MPF) afirmou, em comunicado, que a embarcação investigada pela PF ficou quatro dias retida nos Estados Unidos devido a "incorreções de procedimentos operacionais no sistema de separação de água e óleo para descarga do mar".
A empresa gestora Delta Tankers nega estar envolvida no desastre. O navio, disse a firma em comunicado, "chegou ao seu destino sem problemas durante a viagem e descarregou toda a sua carga sem perdas".
O marco zero
Os investigadores da PF dizem terem conseguido achar a localização da mancha inicial de petróleo em águas internacionais, a aproximadamente 700 quilômetros da costa brasileira.
A partir da localização da mancha inicial – o derramamento teria ocorrido entre os dias 28 e 29 de julho – foi possível identificar o único navio petroleiro que navegou pela área suspeita.
Por meio do uso de técnicas de geointeligência e cálculos oceanográficos regressivos, chegou-se então ao navio de bandeira grega.
Selo venezuelano
A Marinha disse ainda que o óleo coletado nas praias do litoral nordestino foi submetido a análises em laboratórios que comprovaram ser originário de campos petrolíferos da Venezuela.
Estudos feitos pela Petrobras e pela Universidade Federal da Bahia já haviam apontado que o óleo que chegou à costa do Nordeste foi produzido na Venezuela.
Extensão dos danos
O último boletim do Ibama, da quinta-feira última, indica que 286 locais em 98 cidades do Nordeste foram atingidos pelas manchas de óleo.
Um terço das mais de 280 localidades atingidas chegaram a ser limpas, mas viram a poluição retornar ao menos uma vez. Ao todo, 83 praias e outras localidades tiveram a reincidência da contaminação, segundo um levantamento do  portal G1.
O Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) diz que o óleo pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação do óleo no mar.
Um relatório entregue na sexta-feira ao comitê de crise aponta que as manchas podem estar "represadas" em alto mar e sendo arrastadas por correntes marítimas, podendo se mover ainda por bastante tempo e chegar ao Sudeste, especificamente ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro. A possibilidade de que as manchas avancem ainda mais em direção ao sul é tratada como remota, dadas as características geográficas da região, que oferecem uma espécie de proteção natural. 
Risco para Abrolhos
As manchas de óleo de origem desconhecida que atingem o litoral do Nordeste começaram a aparecer na região de Abrolhos, que abriga o arquipélago homônimo, no sul da Bahia, e a maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul. Especialistas preveem uma catástrofe ambiental se o óleo chegar em grande quantidade até ali.
Segundo nota deste sábado (02/11) do grupo de acompanhamento formado por Marinha, Agência Nacional de Petróleo (ANP) e Ibama, pequenos fragmentos foram registrados na Ponta da Baleia, no município baiano de Caravelas, e na Ilha de Santa Bárbara, uma das cinco que formam o arquipélago.
A ONG Conservação Internacional já havia relatado ter encontrado óleo, nesta semana, em Canavieiras, Belmonte e Santa Cruz de Cabrália, na região de Abrolhos, que engloba o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e compreende os ecossistemas marinhos e costeiros entre a foz do Rio Jequitinhonha, em Canavieiras (BA), e do Rio Doce, em Linhares (ES), além dos bancos marinhos de Abrolhos e de Royal Charlotte.
Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos abriga as cinco ilhas do arquipélago. A área é rica em corais e o principal berçário de baleias jubarte da costa brasileira. O turismo e a pesca na região são fonte de renda para cerca de 100 mil pessoas.
Limpeza
No auge da crise, críticos apontaram que a população, os municípios e os estados das regiões afetadas estavam basicamente tendo que limpar sozinhos as praias, recifes e manguezais atingidos pelas manchas de óleo. 
Segundo a Marinha, os estados de Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba estão com todas as suas praias limpas, e os esforços estão agora concentrados na limpeza de cinco praias de Alagoas (Maragogi, Japaratinga, Barra de São Miguel, Feliz Deserto e Coruripe) e de uma na Bahia (Moreré).
Até esta semana, haviam sido retiradas mais de 2 mil toneladas de resíduos de óleo das praias no Nordeste. No total, foram empregados mais de 3.100 militares, 19 navios e três helicópteros da Marinha, além de 5 mil militares do Exército e seis aeronaves da Força Aérea Brasileira.
Eles se somam a 140 servidores do Ibama, 40 do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e 440 funcionários da Petrobras, além de funcionários de órgãos estaduais e municipais.
Com o governo Bolsonaro criticado pela demora e falta de ações efetivas para conter o desastre ambiental no Nordeste, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,chegou a insinuar, sem provas, que o Greenpeace, uma das principais ONGs ambientais do mundo, seria responsável pela situação.
Outra hipótese
A Marinha contesta categoricamente um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que sugeriu que as manchas de petróleo podem ter origem em um grande vazamento abaixo da superfície do mar.
Um pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Ufal, apontou a identificação de um "enorme vazamento de óleo, em formato de meia lua, com 55 quilômetros de extensão e 6 quilômetros de largura, a uma distância de 54 quilômetros da costa do Nordeste".
De acordo com a assessoria de imprensa da Marinha, não há tal registro de mancha de óleo na região ao sul da Bahia. Para a Marinha, a imagem de satélite pode ter mostrado uma nuvem espessa.

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DW

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