03/11/2019

Qual é a diferença entre pornografia e erotismo?



Pornografia é um termo que nos chegou em fins do século XIX (dicionarizado pela primeira vez em 1899 por Cândido de Figueiredo, segundo a datação do Houaiss) do francês pornographie.

Esta palavra tinha nascido cerca de um século antes, em torno de 1800, inicialmente com um sentido sisudo: estudo (de saúde pública) sobre a prostituição. Foi em meados do século XIX que passou a ser empregada para designar a arte, em especial aquela produzida na antiguidade – a princípio a pintura –, que retratava temas obscenos.
A raiz do termo francês estava plantada no grego, língua que tinha palavras como pórne, “prostituta”, e pórnos, “que se prostitui”, além de pornographos, “autor de escritos sobre a prostituição”. Prostíbulo era porneion.
Todos esses termos traziam embutida a ideia de comércio, de compra e venda. Há etimologistas que, cavando mais fundo, vêm neles a raiz indo-europeia per, “vender”, a mesma que está presente no latim pretium, “preço”.
Curiosamente, o vocabulário do latim clássico (conforme registrado pelo referencial dicionário Saraiva) não tinha nenhuma palavra derivada de pórne. Em seu lugar havia prostituta, também um vocábulo de origem comercial, que em seu sentido literal queria dizer “(mercadoria) exposta”.
No verbete pornography, o dicionário etimológico de Douglas Harper oferece um roteiro sucinto da expansão semântica que levou a pornografia a se tornar o que é hoje: em 1859 o termo já era empregado (de forma crítica) em referência a certos romances franceses da época; no início do século XX, chegou às artes visuais contemporâneas.
Quanto ao erotismo, trata-se de uma palavra que também tem origem grega: erotikós, que fez escala no latim eroticus antes de desembarcar aqui ainda no século XVI, significava “que tem amor, paixão ou desejo intenso”.
Termo derivado de Eros, deus grego do amor (Cupido na mitologia romana), nunca teve a carga negativa das palavras derivadas de porné. Também se referia ao desejo sexual, mas aquele ligado ao amor e não ao comércio.
Assim chegamos à segunda dúvida de Isaías. No campo da indústria cultural, que é aquele em que tais palavras conservam grande relevância no mundo contemporâneo, nunca será pacífica a fronteira entre o erotismo e a pornografia. O senso comum costuma traçá-la nas cenas de sexo explícito, que esta teria e aquele não, mas o critério é enganoso: se o erótico também pode ser explícito, nem sempre o pornográfico o é.
Como princípio, pode-se dizer que é erótico um filme, livro ou pintura que dê a seu tema um tratamento artístico (a arte aqui cumpre o mesmo papel que o amor cumpria na distinção original), enquanto a pornografia está interessada apenas em excitar o freguês – e em ganhar dinheiro com isso.
Ocorre, claro, que todo tipo de complicação moral e estética entra em cena na hora de separar uma coisa da outra. O que é erótico para um pode ser – e frequentemente é – pornográfico para outro.

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