15/06/2020

Quando o racismo é um grande espetáculo

Vivien Leigh e Hattie McDaniel em ‘...E o Vento Levou’.


“Havia uma terra de cavaleiros e campos de algodão chamada Velho Sul. Neste belo mundo, a galanteria fez sua última reverência. Aqui foram vistos pela última vez cavaleiros e suas damas, senhores e escravos. Procure isso somente nos livros, pois já não é mais que a lembrança de um sonho. Uma civilização que o vento levou”. São as primeiras palavras de ...E o Vento Levou (1939). Aparecem impressas sobre imagens de escravos conduzindo gado ao entardecer.

O que vem em seguida é um grande filme. Quatro horas de romance, aventuras, tragédia e humor nas quais acontece de tudo e em grande estilo. Suas frases fazem parte da cultura popular. A música é um hino ao cinema. O longa ganhou 10 Oscars. Continua sendo o filme de maior bilheteira da história, ajustada pela inflação. É considerado o auge da era de ouro de Hollywood.
Mas sua introdução define exatamente o tom da obra. É um relato épico e nostálgico da escravidão no sul dos Estados Unidos e da guerra travada para perpetuá-la. Sua caricatura dos negros é um símbolo de racismo para milhões de pessoas, especialmente os negros norte-americanos descendentes daqueles escravos.
No dia 10, um artigo no Los Angeles Times acabou com oito décadas de tolerância incômoda. O diretor e roteirista John Ridley (ganhador do Oscar por 12 Anos de Escravidão) escreveu um artigo intitulado Hey, HBO, ‘GWTW’ Has to Go (em inglês, rima, e pode ser traduzido como “ei, HBO, ‘...E o Vento Levou’ tem de partir”). Nele, pedia à WarnerMedia que retirasse temporariamente o longa de sua nova plataforma de vídeo, a HBO Max. “É um filme que, quando não ignora os horrores da escravidão, detém-se nisso só para perpetuar alguns dos estereótipos mais dolorosos sobre as pessoas de cor”, escreve Ridley. Naquela mesma tarde, a WarnerMedia anunciou a retirada do filme de seu catálogo. Voltará no futuro, com algum tipo de introdução de contexto.
A polêmica sobre ...E o Vento Levou não é nova. As críticas por racismo começaram antes mesmo da filmagem. Talvez seja difícil de entender em países que não sofreram a monstruosidade da escravidão. Mas este não é um filme global. É um filme norte-americano. Quando estreou, estavam vivos os filhos e os netos desses negros reduzidos a caricaturas. Nos EUA, é racista. Nenhuma voz relevante da cultura saiu em sua defesa.
“O único propósito deste filme é fazer uma história da escravidão a partir de uma perspectiva favorável”, explica Sam Fulwood III, escritor do Center for American Progress e especialista em racismo na mídia. “Ele glorifica uma parte da história norte-americana que para os negros e para muitos norte-americanos é uma vergonha.” Fulwood acredita que o filme seja apenas “mais um” na esteira de O Nascimento de Uma Nação (1915). O filme de Griffith foi uma sensação em sua época e é outro clássico que glorifica a vida no sul. Neste caso, a Ku Klux Klan, diretamente, era a heroína.
A reação fulminante da WarnerMedia, a empresa proprietária da HBO, só pode ser entendida no contexto da mudança cultural profunda que os EUA parecem estar vivendo em relação ao que se chama de racismo institucional, o racismo tão incrustado na cultura, na polícia e na economia que os brancos nem o veem. Os estrangeiros, muito menos. O assassinato, a sangue frio e diante das câmeras, do negro George Floyd nas mãos de um policial branco abriu uma torneira pela qual estão saindo anos de reivindicações.
O único precedente parecido é o movimento Me Too, despertado pelas denúncias contra Harvey Weinstein, que em poucas semanas de 2017 mudou completamente um vem Hollywood. Coisas que pareciam incrustadas na cultura, inevitáveis, parte da vida, simplesmente passaram a ser inaceitáveis de um dia para outro. Foi o que decidiram milhões de mulheres ao mesmo tempo, com a solidariedade de milhões de homens.
Algo assim ocorre agora com os negros norte-americanos, mobilizados de costa a costa e com a novidade de uma solidariedade maciça dos brancos. Cidades por todo o sul dos EUA estão retirando estátuas da Confederação. Netflix e Amazon Prime recebem a seus usuários com ciclos de cinema afro-americano. O jornal Los Angeles Times mudou suas normas de estilo na semana passada para usar sempre com inicial maiúscula a palavra negro. A NFL (liga de futebol americano) se desculpou por não ter sido sensível aos protestos de alguns jogadores no passado. Até Donald Trump mudou de data um comício previsto para o dia 19 em Oklahoma. Ele o reagendou para o dia 20, porque em 19 de junho é comemorado o fim da escravidão nos EUA. Trump ouviu, entendeu e retificou. Que isso sirva como medida do que está ocorrendo.
“Os negros nunca tiveram poder porque não controlavam nem a mídia nem o negócio de Hollywood”, diz Fulwood. “Só podiam ficar ofendidos e nada mais. O que vemos agora é a cultura se transformando diante dos nossos olhos. A cultura muda muito lentamente. Agora está mudando por hora.”
Neste contexto, um clássico como ...E o Vento Levou “tem um valor simbólico, como os monumentos”, explica Ellen Scott, professora de Cinema e Mídia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). É claro que há centenas de filmes com problemas semelhantes, mas este “é um dos filmes mais promovidos da história, teve uma trajetória que muito poucos filmes de Hollywood têm. Foi reexibido muitas vezes na televisão. É um filme de prestígio que superou a história para se tornar o ícone da Hollywood clássica, é cultura norte-americana”.
De repente, o racismo aceitável já não é aceitável. O que ocorre com ...E o Vento Levou terá que ocorrer com livros e quadros, opina Fulwood. “Todas as obras precisam de contexto. Assim como existem músicas que têm uma etiqueta de parental advisory porque podem ofender. Nos anos 1960, as comunidades do sul dos EUA não deixavam seus filhos ouvirem música negra porque era uma má influência. As fotos de Robert Mapplethorpe eram pornográficas porque desafiavam a cultura naquele momento. Já não são. Não se deve proibir nada. O trabalho de um artista é produzir e o dos historiadores, contextualizar”, assinala.
Foi isso que enfrentou, por exemplo, a Disney. Ao colocar todo seu catálogo de uma vez na plataforma Disney+, ela percebeu que havia conteúdo que não é aceitável hoje. Alguns de seus clássicos mais celebrados trazem hoje uma advertência de que “contêm representações culturais antiquadas”. A advertência aparece em filmes como Dumbo (1941). Outro filme polêmico, A Canção do Sul (1946), não está no catálogo.
A retirada de ...E o Vento Levou “pode ser usada como oportunidade para debater a influência de muitos estereótipos que esse filme popularizou, como o papel de Mammy”, disse na semana passada o reitor de Sociologia da UCLA e professor de Estudos Afro-Americanos, Darnell Hunt. “Ninguém diz que esses filmes devem ser destruídos. Trata-se de ser sensível a este momento e pensar em melhores formas de apresentar material como esse, que tem um significado novo neste contexto. O significado não existe no vazio. Quando ocorrem coisas que mudam a consciência das pessoas, o significado de coisas feitas há 50 anos muda.”
Nessa mudança cultural, os filmes, mais que os livros e outras formas de arte, têm a responsabilidade especial de não continuar contribuindo para estereótipos raciais, opina Scott. “Eles têm uma responsabilidade especial, e a indústria sabe disso. Mas é preciso caminhar por uma linha tênue entre censura e pensamento positivo para encontrar formas de representação positivas. A censura é um problema. Mas não contratar diretores e roteiristas negros também é uma forma de censura. O remédio não é mais censura, e sim tornar Hollywood mais diversificada. E isso ainda não ocorreu.”

conteúdo
Pablo Ximénez de Sandoval
Los Angeles
El País

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