14/08/2020

Poção do século 10 com alho-poró e vinho combate superbactérias em laboratório



Conforme certas estirpes de bactérias se tornam cada vez mais resistentes aos antibióticos contemporâneos, cientistas de todo o mundo procuram alternativas para combater o problema – um dos mais graves da saúde pública. E quem diria: uma receita bactericida usada há mil anos, em plena Idade Média, pode ajudar nessa missão.

Um grupo de cientistas ingleses de diferentes áreas – há especialistas tanto em microbiologia quanto em análise de textos antigos envolvidos no projeto – está testando uma combinação de substâncias descrita em um livro de poções do século 10 que parece ser promissora no combate à Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA). Estima-se que, até 2050, 10 milhões de pessoas morrerão por ano infectadas por microorganismos imunes aos fármacos conhecidos – qualquer ajuda é pouco.
Utilizado na época para tratar o terçol, um tipo leve de infecção bacteriana nos olhos, esse estranho coquetel é descrito no manuscrito anglo-saxão Medicinale Anglicum, conhecido informalmente como Bald’s Leechbook – em português, algo como “Livro de cura de Bald”, em referência ao autor, do qual sabemos apenas o nome. O manuscrito é um dos mais conhecidos compêndios de práticas da medicina medieval.
A mistura em questão leva alho, vinho, bile de vaca e cebola (ou alho-poró – o termo, no inglês da época, poderia se referir aos dois temperos). Segundo o manuscrito, ela deveria ser preparada pelo menos 9 noites antes do uso, e ser mantida em temperaturas amenas.
A lista de ingredientes digna de Harry Potter pode soar como uma baboseira – a expectativa de vida da época não era exatamente alta para justificar muita crença nos farmacêuticos anglo-saxões –, mas o fato é que essa poção específica, ao contrário de outras presentes no Leechbook, apresenta um efeito antisséptico notável em condições laboratoriais.
Tudo começou em 2015, quando um outro estudo pela mesma equipe mostrou que a poção era eficiente em combater a MRSA. Os resultados positivos foram observados quando os microorganismos foram cultivados em recipientes de vidro com células humanas, e também quando a mistura foi usada para tratar camundongos infectados.
Agora, o novo estudo, publicado no periódico Science Advances, mostrou que a combinação de fato é eficiente não só contra a MRSA, mas também contra cinco tipos de bactérias que possuem estirpes resistentes aos antibióticos comuns: Acinetobacter baumannii, Stenotrophomonas maltophilia, Staphylococcus aureusStaphylococcus epidermidis Streptococcus pyogenes. Para realizar os testes, os pesquisadores produziram vários lotes da poção em laboratório (algumas levavam cebola, outras alho-poró, para contornar a dúvida na tradução do inglês arcaico).
Essas bactérias têm em comum a capacidade de se organizar em biofilmes. Biofilmes são comunidades com centenas de milhares de microorganismos, que podem se formar em essencialmente qualquer superfície úmida – da louça da privada até uma mucosa humana. Nos biofilmes, as bactérias ficam embebidas em substâncias produzidas por si próprias que as protegem das adversidades do ambiente circundante – como antibióticos.
A poção do Bald’s Leechbook funciona porque é capaz de quebrar o biofilme, e os pesquisadores ainda não sabem qual é a química por trás desse passe de mágica medieval. Os ingredientes já foram testados separadamente, e não são eficazes sozinhos. Há algo que torna a mistura melhor que suas partes.
Nos testes, os pesquisadores aplicaram a substância em biofilmes que se formaram apoiados em amostras de tecido humano. É bom lembrar que testes desse tipo são apenas preliminares – muitos graus de complexidade são adicionados quando passamos para a experimentação em camundongos e humanos. O que é o jeito educado de dizer: não faça essa (nem qualquer outra) receita medieval em casa. Lugar de remédio é na farmácia, caro leitor.
A equipe ressalta que os resultados parecem ser especialmente promissores para o tratamento de infecções bacterianas em ferimentos nos pés e pernas de pessoas com diabetes. Esses quadros são tão difíceis de tratar que muitas vezes requerem a amputação do membro para evitar que as bactérias atinjam o resto do corpo.
“Como a mistura não causou muitos danos às células humanas em laboratório ou aos camundongos, poderíamos potencialmente desenvolver um tratamento antibacteriano seguro e eficaz a partir disso”, disse Freya Harrison, autora principal do estudo. “A maioria dos antibióticos que usamos hoje são derivados de compostos naturais, mas nosso trabalho destaca a necessidade de explorar não apenas compostos individuais, mas misturas de produtos naturais para o tratamento de infecções por biofilme.
De qualquer forma, vale repetir o aviso antes de encerrar: os experimentos só foram feitos em laboratório e em camundongos, e não em humanos. Os cientistas acreditam que, se a mistura de fato for eficaz para nós, deverá agir só em casos específicos. Ou seja: não adianta fazer um chá de alho e cebola na sua casa. Procure um médico.



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Bruno Carbinatto
Super

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